Khiva, a bela

            Era madrugada ainda e os hits dos anos 90 no rádio nos faziam mais companhia que o motorista sisudo no caminho do aeroporto. Ele nos deixou longe do terminal e nos indicou o caminho, achei que era má vontade. Mas não: ninguém pode entrar na área de embarque que não sejam os próprios passageiros e o controle policial começa uma centena de metros antes do prédio.

            Depois de mais controles, passagens pelo raio-x e espera numa sala espartana com apenas uma máquina de café para ajudar a matar a fome, embarcamos no avião da Uzbekistan Airways com destino a Urgench, a mais de mil quilômetros da capital. Apesar de não ter uma grande reputação, tivemos um voo tranquilo em um Airbus, nada dos Antonovs ou Ilyushins usados em décadas passadas (apesar de ainda constarem alguns no ativo da empresa).

             Depois da partida, o que se via pela janela eram os afluentes do Syr Darya, marcando rugas profundas na face do deserto do Kyzylkum. Logo o próprio rio separa o árido a leste de uma pequena faixa de cultivo a oeste, com canais de irrigação. Depois, só o deserto, imenso.

            A terra fica mais fértil enquanto nos aproximamos do nosso destino, devido à proximidade com o Amu Darya. O seu delta, que vai até o mar de Aral, delimita a região do Khorezm – habitada há milênios, muito antes da Rota da Seda se tornar importante. Urgench é a capital da província, mas nosso destino estava a meia hora do aeroporto, num ponto a menos de 10 km da fronteira com o Turcomenistão: Khiva.

            Remota é uma boa palavra para descrever essa cidade murada, que já foi um posto secundário na Rota da Seda, mas se tornou mais famosa pelo seu mercado de escravos. Os khans, líderes do estado do qual Khiva era capital, faziam negócios com os chefes tribais que habitavam o Kyzylkum e atormentavam a região com suas guerras para captura de prisioneiros.

            Longe de épocas bárbaras, hoje Khiva é mais que pacífica: é uma cidade pequena com pouco movimento, numa região fronteiriça. O que a torna tão especial para justificar cruzar o país até ela é justamente a sua citadela medieval, espetacularmente preservada: Ichon-Qala.

            Entrar pelas muralhas de adobe é como voltar no tempo alguns séculos ou entrar em algum cenário ideal para um conto de As Mil e uma Noites. É um ambiente atemporal, que poderia representa a Khiva de cem anos atrás ou do século XV, especialmente quando se foge do eixo principal da Pahlavon Mahmud…

            …e facilmente se encontram vielas vazias.

            Ou então à noite, quando a cidade fica quase deserta, com seus monumentos iluminados. Melhor aproveitar um pouco antes ou depois do jantar e sentir outra Khiva, mais atmosférica ainda, se isso é possível.

            Mas todas as recomendações que tivemos convergiram em uma só: aproveitem a cidade no pôr-do-sol! E nós aproveitamos. Nesta hora, ela é fotogênica de qualquer ângulo, mas o melhor lugar para se estar é a torre de observação de Kuhna Ark (a fortaleza dos khans):

            …toda Ichon-Qala pode ser vista daqui de cima, com destaque para a madrassa Rakhim Khan, onde hoje há um museu sobre a história e da cidade e seus khans, inclusive o que conseguiu manter Khiva independente da União Soviética por alguns anos, com direito a moeda própria…

            …a mesquita e a sala do trono do próprio forte Kuhna, com o símbolo da cidade ao fundo, o minarete Kalta Minor…

            …uma visão geral das ruas residenciais…

            …e das muralhas.

            As muralhas ficam especialmente reluzentes no final de tarde, o marrom do adobe se transformando em dourado e envolvendo toda a cidade, que também brilha dentro delas.

            Mas não é somente de marrom e dourado que Khiva é feita: os mais lindos tons de turquesa aparecem em todas as construções e complementam perfeitamente o tom do adobe. Além disso, fazem eco do lindo céu ensolarado que tivemos em toda a temporada uzbeque.

            O minarete Kalta Minor é o melhor exemplo disso. Seu perfil robusto contrasta com o de outros minaretes, mas por um bom motivo: o khan que ordenou sua construção queria que ele fosse tão alto que ele pudesse enxergar Bukhara, a 500 quilômetros de distância (ou quase três semanas de jornada em camelos). Segundo a lenda, somente quando a torre já estava com boa parte erguida é que ele percebeu que dali poderiam conferir seu harém, dentro de Kuhna Ark. E ordenou que a obra parasse.

            Parece pouco provável que um engano de tal porte tenha ocorrido, a história oficial é a de que a obra foi interrompida com a morte do khan. Um pouco menos interessante, no entanto.

            Cada fase do khanato teve seus momentos de expansão e renovação da cidade e a citadela hoje é um composto de amostras arquitetônicas de várias épocas. Mas o interessante é que não se percebe muito isso: os esforços de restauração foram tão intensos que se atingiu uma homogeneidade no ambiente geral de Khiva intra-muros. Essa minúcia pode suscitar uma nostalgia de um certo ar decadente, mas ao mesmo tempo é esse mesmo ar atemporal que permite uma experiência de estar numa bolha de tempo, além de demonstrar o cuidado com o patrimônio histórico.

            Como contraponto, uma incursão pelas áreas residenciais de Ichon-Qala mostram um lado mais autêntico, dão uma dimensão mais humana à cidade.

            Seja como for, o tamanho reduzido e a quantidade absurda de grandes obras de arte da arquitetura islâmica fazem de Khiva um lugar delicioso para se passear a qualquer hora do dia. A mesquita Juma é um oásis de paz bem no centro da citadela desde o século X, com seu mar de colunas e uma iluminação suave que convida a relaxar. O silêncio é quase absoluto.

            O mausoléu de Pahlavon Mahmud, mais ao sul, é um outro lugar especial, sobretudo se houver um imam cantando em benção às famílias.

             Continuando nessa rua, um minarete altíssimo e colorido chama a atenção: é a madrassa Islom-Hoja, com um pátio agradável e um museu de artes aplicadas.

            Seguindo para o norte, chega-se a uma área cheia de madrassas e mesquitas incríveis, mas a atração principal aqui é o palácio Tosh-Hovli. Foi construído como uma alternativa mais moderna e mais suntuosa que o Kuhna Ark e pode-se bem ver isso na qualidade dos entalhes de madeira nos pilares e tetos, dos azulejos e dos afrescos. A sensação conseguida com esse trabalho dedicado é de simetria, serenidade e beleza.

            Dali, é uma pequena caminhada até o portão leste, Polvon-Darvoza, um corredor onde ficavam as celas dos prisioneiros à espera de serem vendidos como escravos. São baixas e abafadas, faz imaginar o terror da população do deserto que tinha a infelicidade de ser capturada e levada para uma vida de cativeiro. Hoje apenas turistas e garotos voltando da escola frequentam o portão, mas as celas ainda estão ali como lembrança da história.

            Mas, em meio a períodos de barbárie, a cidade produziu também arquitetura, arte e artesanato únicos, além de ser o berço de um dos maiores matemáticos: Al-Khwarizmi, fundador da álgebra, cujo nome foi emprestado às palavras algarismo e algoritmo. Essa simplificação do nome faz menção à sua região de origem, o Khorezm.

            Muito antes de Khiva se tornar uma cidade importante na Transoxiana, o Khorezm já tinha abrigado cidades e fortalezas há mais dois mil anos. Algumas de suas ruínas ainda estão de pé e estão a cerca de cem quilômetros de Khiva no meio do Kyzylkum, em uma região chamada Elliq-Qala.

            Passamos por cima do Amu-Darya, hoje um rio com nível baixo devido à drenagem excessiva para o cultivo de algodão, um delírio de grandeza soviético. Com a redução do fluxo do Amu-Darya, também houve a diminuição do nível do Mar de Aral, transformando-o num mar praticamente morto. Por todo o caminho ainda vemos os canais de irrigação e o algodão, ainda a principal fonte de renda, mas que aos poucos vai minando todo o meio-ambiente da região.

            Avançamos pelo deserto até chegar à primeira fortaleza, Kyzyk Kala. Uma estrutura improvável no meio do nada, só arbustos e muralhas de adobe. Ainda procuramos uma entrada, mas parecia uma caixa fechada.

            Toprak Kala está a apenas alguns quilômetros, mas é totalmente diferente: além de poder ter acesso ao seu interior, é possível ter uma visão ampla de todo o complexo de templos que servia aos reis do Khorezm. Estima-se que tenha tido seu auge entre os séculos III e IV d.C.

            Não havia fim para o horizonte desértico, mas ele se expandiu mais ainda do topo de Ayaz Kala, uma cidade de barro sobre um monte, perdida no meio do Kyzylkum. Depois de uma longa subida pela areia…

            …a recompensa de andar por um recanto perdido da Ásia Central, imaginando do topo as caravanas de camelos andando chegando de reinos distantes…

             …vendo o forte do complexo num patamar mais baixo…

            …e imaginando que você é um dos poucos seres humanos num raio de muitos quilômetros.

            Poucos, mas não únicos: um campo de yurtas próximo recebe hóspedes que queiram uma experiência diferente.

            Nós só pudemos aproveitar da hospitalidade nômade para um almoço e esse poderia ser o final de dia perfeito, se ainda não tivéssemos chegado a Khiva a tempo de aproveitar cada minuto de luminosidade na cidade. Subimos novamente até a torre de Kuhna Ark para nos despedirmos da cidade.

            Khiva é linda e é remota. E nos ajudou a entender a atração que os lugares desérticos exercem sobre as pessoas. Afinal, nós saímos capturados por ela. Ainda bem que tínhamos Bukhara pela frente para nos consolar da partida.

Contatos imediatos: Tashkent

            A ansiedade é um bom antídoto contra o sono. O fuso também ajuda, afinal o corpo entende que é apenas 6 da tarde, mas o relógio marca 2 da manhã e tudo o que se quer é chegar ao hotel. Mas a burocracia uzbeque não deixa: para começar, o guichê para concessão do visto está fechado. Pergunto a um guarda e ele coça a cabeça, vira as costas e vai embora. Decidimos esperar um pouco, enquanto os europeus passam tranquilos diretamente para a imigração. Depois de uns 10 minutos aparece um sonolento funcionário, que nem acende a luz da cabine, só abre os olhos o suficiente para checar nossa carta convite e conceder o visto.

            Mas ainda estamos longe de nos vermos livres do austero aeroporto de Tashkent. Somos os últimos na fila da imigração, ainda esperamos um bocado pelas malas e o pior: uma espera maior ainda para passar pelo controle da alfândega. Uma guarda criteriosa analisa o formulário, enquanto a mala passa pelo raio x. Vê nossa nacionalidade e abre um sorriso: o primeiro de muitos que receberemos nos próximos dez dias. Ser brasileiro abre portas e o uzbeque se revelou naturalmente receptivo: uma combinação que transformou uma viagem potencialmente especial em espetacular.

            Percorremos as ruas desertas no meio da noite até o hotel, onde tivemos mais uma amostra da burocracia local: os passaportes saíram com o primeiro papelzinho de registro, com o período de hospedagem. Todos os visitantes devem ter registradas suas hospedagens junto ao Ovir (Escritórios de Vistos e Registros), o que os hotéis normalmente providenciam: é essencial manter todos os papéis até a saída do país.

            Falar que este é um dos bons hotéis de Tashkent não ajuda muito: o lobby desolador e o quarto escuro decorado em tons de vermelho e dourado fazem imaginar que ainda estamos em plena era soviética. Hotelaria não é o forte do país e acabamos nos acostumando à decoração duvidosa, aos colchões com molas quebradas e à caça ao wi-fi (isso sem falar em horários restritos para banho num deles). Mas esse é um incômodo mínimo para tanta recompensa.

            Tashkent é uma cidade antiga, com mais de dois mil anos de ocupação e importância na Rota da Seda. Mas o que vemos, andando pelas ruas, são edifícios relativamente novos, dispostos sobre um plano urbanístico de grandes avenidas. A nova versão de Tashkent data de 1966, quando a cidade foi destruída por um terremoto de grande intensidade e a ocupação soviética decidiu o estilo da reconstrução.

            Resta muito pouco da área antiga da cidade, casas quietas em ruas sem pavimento e casas caiadas…

            …o mais comum é ver prédios comerciais e governamentais de formas retas e conjuntos habitacionais, prédios e mais prédios idênticos.

            O interessante é notar que mesmo as construções pós-independência, incluindo as mais recentes, parecem saídas de um filme de época, voltando aos anos 60 e 70. Deve ser mesmo difícil encontrar um caminho inédito com tantos anos de dominação e um certo isolamento pós-independência com a ditadura imposta por Karimov.

            A lembrança de que estamos em um país relativamente fechado vem em alguns momentos, como nos rigorosos controles policiais em estações de trem e aeroportos, além de algumas proibições desnecessárias de se tirar fotos. Mas o sintoma mais evidente é a maneira comedida com que falam da situação política atual. E ‘dele’. Mas o que faz com os uzbeques tolerem um ditador que tem uma imensa folha corrida de violações de direitos humanos e controle de imprensa (sem mencionar o massacre de Andijon), é o fato de ele manter a paz e a estabilidade no país enquanto mantém longe o fanatismo religioso, mesmo estando cercado por tantos vizinhos complicados como Afeganistão e Tadjiquistão.

            Apesar de tudo, as pessoas seguem com suas vidas e não parecem pressionadas, talvez simplesmente acostumadas com um regime que já dura duas décadas. E percebemos muito bem essa rotina numa instituição da Ásia Central: o bazar. Cada cidade tem vários deles e a maioria das pessoas faz suas compras ali, desde alimentos até roupas, acessórios para cozinha e móveis.

            Em Tashkent o principal bazar é o Chorsu, com sua grande cúpula verde: ele representa bem a mistura do rigoroso estilo soviético com a tradição islâmica de motivos geométricos e presença de cor, tão comum em todo o país. A sua estrutura curiosa rivaliza com a diversidade incrível de produtos espalhados dentro dele e ao longo dos pavilhões: este é um dos mais antigos bazares da país (as construções vistas são apenas a sua cara mais recente) e um dos maiores também.

            Aqui tivemos uma das primeiras experiências da generosidade que encontramos em todo o Uzbequistão: um mocinho nos oferece uma bolinha de iogurte desidratada para experimentarmos, um dos petiscos mais comuns. Confirmando a nossa aprovação, ele coloca uma boa quantidade num saquinho e nos dá de presente – não aceita de maneira nenhuma o pagamento. Tivemos muitas experiências semelhantes durante a viagem, gentileza expressada naturalmente.

            O bazar Chorsu é também um lugar de fácil acesso a uma idiossincrasia uzbeque: o câmbio. A grande diferença entre o oficial e o negro faz com que ninguém utilize o primeiro. Além disso, a moeda (som) vale muito pouco, o que assusta quem troca uma nota de US$ 100: um bolo de dinheiro que ocupa boa parte de uma bolsa ou mochila e exige paciência na hora de contar as cédulas para qualquer pagamento.

            Até mesmo o valor da primeira refeição assusta, enquanto não nos acostumamos com a conversão: pão, salada de tomates e pepinos, alguns shashlyks (espetinhos) de cordeiro, sempre entremeados de pedaços de gordura, e potes de chá, pedidos em qualquer situação. Esses são os básicos da alimentação uzbeque e muitas vezes é o que se tem para comer. Mas apesar do pão corresponder somente às vezes às expectativas, o cordeiro raramente decepciona. E o chá, verde ou preto, se tornou nossa bebida básica de todas as refeições e ocasiões.

            Outras opções são o manti (espécie de dumpling), shorpa (caldo de carne com batatas e pedaços de carne), pelmeni (espécie de capeletti in brodo), dimlama (cozido de carne e legumes) e, claro, o prato nacional do Uzbequistão: o plov – arroz com pedaços de cordeiro, sendo preparado de diversas formas, mas sempre com muito óleo. Em Tashkent existe até um restaurante gigantesco especializado no prato: o Centro de Plov da Ásia Central. As refeições não são muito variadas e o excesso de carne e gordura pode ser um pouco desafiador para os vegetarianos e os que estão em dieta.

            A chaikhana onde almoçamos ficava em frente ao complexo religioso Khast Imam, o mais importante do país, composto por uma mesquita, uma madrassa (escola corânica), mausoléus e um museu de unidades raras do Corão: uma das mais interessantes atrações da cidade é justamente o mais antigo que resta no mundo, escrito no Irã no século VII. Enorme, é escrito em pergaminho na caligrafia kufi, uma forma antiga da escrita árabe. Curiosíssimo, mas infelizmente não pode ser fotografado – uma foto pode ser vista aqui (pela qualidade, tirada na surdina).

            Os uzbeques não usam mais a escrita árabe desde o início do século XX, quando foi introduzido o alfabeto latino na esteira da modernização das línguas turcomanas iniciada por Atatürk na Turquia. Pouco tempo depois os soviéticos obrigaram o uso do cirílico para grafar a língua uzbeque e durante décadas essa foi forma dominante, até a independência. Hoje, o alfabeto oficial é o latino, mas na prática o cirílico é tão usado quanto ele. O russo também é falado pela maior parte da população e quem sabe falar a língua tem grandes chances de socializar.

            Além dos caracteres cirílicos, outro resquício soviético é o metrô de Tashkent, mais uma  grande atração de Tashkent que não pode ser fotografada, por motivos estratégicos. Uma pena, pois as estações são espetaculares, cada uma em um estilo diferente, embora não tão grandiosas quanto o sistema-mãe, em Moscou. Construído nos anos 70, proporciona uma viagem no tempo para quem entra em um dos seus vagões azuis e verdes, as cores nacionais.

(foto de guidecity)

(foto de livetashkent (e) Nir Nussbaum (d))

            As estações centrais permitem acesso às avenidas largas e sombreadas próximas ao Senado, ao palácio do presidente, museus e à praça Amir Timur, com uma estátua equestre do próprio.

            Num dos lados da praça está o Hotel Uzbekistan, um clássico da época soviética, e é ali que os moradores da cidade passeiam e aproveitam o final do dia. Como nosso voo do dia seguinte foi adiantado pela Uzbekistan Airways, perderíamos meio dia que teríamos em Tashkent e então nós também aproveitávamos ao máximo o resto do nosso dia.

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