Bukhara essencial

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            Nada como poder descansar à beira de uma piscina do século XVII, cercada de amoreiras antigas, com duas magníficas madrassas em cada lado e uma chaikhana com suas tapchan na beira da água. Do outro lado, uma das principais ruas de pedestres de Bukhara começava a se animar com o movimento do final da tarde – senhores conversando nos bancos, crianças brincando no parque, trabalhadores fazendo compras e voltando para casa.

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            Lyabi-Hauz é o centro da atividade em Bukhara: uma das poucas piscinas que sobraram de dezenas que povoavam a cidade e os canais que as alimentavam. Ao seu redor estão belos edifícios do século XVI e XVII, como a as madrassas Kukeldash e Nadir Divanbegi – essa última com lindos desenhos de pássaros na sua fachada, prova de que o Islã aqui também era mais relaxado em tempos antigos.

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            Um caravanserai de um lado do lago, um restaurante à beira dele, um jardim o dividindo das madrassas, onde noivos tiram fotos. O sol se punha e deixava todo o complexo arquitetônico dourado.

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            Mas esse final de dia perfeito foi uma recompensa e um contraste total à nossa jornada para chegar ali. Saindo cedo de Khiva, passamos por alguns vilarejos, com suas casas tradicionais com videiras na frente…

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            …e paramos em um deles para comprar suprimentos para a viagem de cerca de 7 horas, a maior parte dela por dentro do deserto do Kyzylkum.

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            A distância entre as duas cidades é grande, mas se torna maior pelo estado lastimável da estrada, onde não conseguíamos fazer mais que 30 km/h…

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            Nenhum sinal de vida em quilômetros, mas uma chaikhana nos salvou na hora do almoço, com sopa e espetinhos de cordeiro deliciosos, como uma miragem. Tivemos, além das dunas que ameaçavam enterrar o já péssimo asfalto, o Amu Darya como companhia por um longo trecho, servindo de fronteira com o Turcomenistão, na outra margem.

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            No meio da tarde chegamos a Bukhara, uma das cidades mais antigas da Ásia Central, considerada também uma cidade sagrada: seu centro antigo é cheio de mesquitas, minaretes, e madrassas. Há tantas dessas últimas, sem contar as que foram destruídas, que não é difícil imaginá-la como uma cidade universitária. Hoje apenas uma ainda mantém alunos, que pudemos flagrar através de suas treliças: a Mir-i-Arab.

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            Ela é uma das lindíssimas integrantes dessa praça que pode ser considerada um dos pontos centrais da cidade: além da madrassa, aqui está a mesquita Kalon, enorme, simétrica, bela.

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            Percorrer seu pátio e corredores, vendo o complexo de vários ângulos, foi um daqueles momentos de surpresa na viagem, quando você se pega admirando o que vê em voz alta.

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            Mas o personagem principal da praça é mesmo o minarete Kalon.

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            Ele surpreende por tudo: altura, o trabalho ornamental de tijolos em diferentes desenhos, seus alicerces profundos que evitaram que caísse mesmo depois de vários terremotos. E não somos somente nós, turistas, que ficamos impressionados: até Gengis Khan, não exatamente conhecido por sua piedade e respeito pelos povos que conquistava, ficou tão admirado com a estrutura (provavelmente nunca tinha visto uma tão alta), que poupou-a da destruição que destinou às construções vizinhas. Ela é portanto, uma das poucas lembranças da Bukhara antes da invasão mongol.

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            Para poder admirar melhor o complexo arquitetônico, passe por trás do minarete até a área residencial próxima, num nível mais alto: parece outro lugar, tão diferentes as visões. Mas a melhor maneira de constatar a sua grandiosidade é subir até o terraço do restaurante Chashmai Mirob e se encantar com a vista enquanto come mantis recheados de abóbora.

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            Estávamos visitando o centro compacto de Bukhara numa sexta-feira, dia santo para muçulmanos e a mesquita Bolo-Hauz estava lotada. Senhores rezavam nas áreas interna e externa, mas muitos também se reuniam fora dela, na beira de outro reservatório – era claro que, mais que um evento religioso, a prece de sexta era uma oportunidade para fazer social. E tudo colaborava: o dia ensolarado e agradável, os bancos à beira da água, sob as árvores, a visão da belíssima mesquita coberta de entalhes de madeira, trabalhos em gesso, pilares esculpidos e as cores que cobriam paredes e teto.

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            Do outro lado da piscina, chamava a atenção uma estrutura pesada, talvez a maior da cidade: Ark, a fortaleza de onde reinaram os khans de Bukhara desde o século V.

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            O que existe hoje é de épocas posteriores, mas infelizmente boa parte do que há dentro foi destruído pela invasão soviética e o que sobrou não pudemos ver – a visitação estava temporariamente suspensa. Mas as gigantescas e estranhas muralhas estão recuperadas em boa parte e são uma das visões mais inconfundíveis de Bukhara.

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            Mas nem só de religião vivia a cidade: seus bazares cobertos atraíam multidões de comerciantes e suas caravanas. São estruturas arquitetônicas muito belas, pequenas cúpulas espalhadas aqui e ali pela cidade – é fácil identificá-las em uma caminhada pela cidade.

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            Cada especialidade se concentrava em um bazar: perto de Lyabi-Hauz há o Taki-Sarrafon, região onde se concentravam os operadores de câmbio.

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            A região ao sul dele é o tradicional bairro judeu, ocupado densamente desde o século XII e com direito a uma língua própria, mistura de persa com hebraico. A maioria emigrou para Israel, no entanto, e só um grupo pequeno ainda resta em Bukhara.

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            Próximo à praça central está o bazar Taki-Zargaron, com seu característico pé-direito alto que facilitava a circulação de ar – essencial numa região sempre quente.

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            Ele pertencia tradicionalmente aos joalheiros e digo isso porque hoje essa divisão de especialidades não faz mais sentido: muitos dos bazares foram perdidos no decorrer da história e, nos que sobraram, hoje a maior parte das mercadorias é composta de tapetes e suzanis (tecidos bordados). Hoje a venda de joias é uma exclusividade feminina no bazar do ouro, ao lado da mesquita Kalon.

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            A venda de tapetes e têxteis é atualmente a principal função do Taki-Telpak Furushon, ou bazar dos fabricantes de chapéus: seus corredores são tomados por lojas de tapetes e, se você não consegue resistir a um, é melhor passar longe dele. Tudo é lindo, desde os mais finos de seda até os tribais, rústicos. Há tapetes novos e antigos, muitos com o padrão bukhara: fundo vermelho com motivos distribuídos em linhas e colunas. Apesar do nome, a maioria dos bukharas é feita no Turcomenistão, um dos principais produtores de tapetes orientais na atualidade. Mas se você tem a intenção séria de fazer uma compra, pode passar horas muito agradáveis andando pelas lojas, vendo os estoques e negociando.

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            Certamente as peças que devem chamar a atenção são as antigas, muito belas e bem mais caras. Um bom lugar para apreciar este tipo de tapetes é o pequeno museu que fica dentro da mesquita Maghoki-Attar, bem próxima do bazar. Difícil escolher, no entanto, a que dedicar mais tempo: ao acervo ou ao edifício.

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            Esta é a mesquita mais antiga da Ásia Central, datando do século IX, construída sobre o que já foi primeiramente um templo budista e depois zoroastriano. Sofreu modificações no século XVI, foi danificada por um terremoto no XIX e recuperada no XX: parte da escavação arqueológica ainda pode ser vista ao lado. Era ela que víamos na névoa da manhã depois de acordar, pela janela de nosso quarto.

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            Ao contrário de outras cidades uzbeques e quirguizes, Bukhara conseguiu manter algumas poucas construções anteriores ao século XIII e à destruição provocada pelos mongóis. Além dessa mesquita e do minarete Kalon, o mausoléu de Ismail Samani é um exemplo muito bem conservado de arquitetura do Islã: foi construído entre os séculos IX e X, tendo sobrevivido quase sem restaurações graças à sua solidez.

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            Ele fica num parque a oeste do centro da cidade, onde há também restos da muralha original que protegia a cidade, além do curioso mausoléu Chashma Ayub: há aqui um poço onde as mulheres fazem fila para retirar a água. Segundo a lenda, o bíblico Jó teria batido seu cajado na terra aqui e feito brotar uma nascente.

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            Seu formato incomum só adiciona à coleção arquitetônica de Bukhara, cheia de estruturas dos mais diversos tipos, ao contrário da unidade vista em Khiva. Outro exemplo disso é o Char Minar, bem escondido em numa praça de um bairro residencial: as quatro torres que o compõem não têm nenhuma função a não ser estética, e funcionavam como um dos portões de uma madrassa que já não existe mais.

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            A verdade é que a lista vai mais além: a cidade é cheia de antigos palacetes, mausoléus, museus, hammams…Bukhara ainda preserva o ambiente que tinha na época pré-soviética, especialmente na sua região central.

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            É preciso muito mais que dois dias para aproveitá-la como se deve: com calma. Parando para um chá. Entrando nas lojas nem que seja somente para admirar seus tapetes. Sentando num dos bancos de Lyabi-Hauz e ver a transformação do complexo conforme o sol percorre sua trajetória.

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            Entrando em uma madrassa qualquer e se surpreendendo com o que há lá dentro.

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            Fazendo amigos. Alugando uma bicicleta para percorrer as vielas dos bairros antigos. Queríamos ficar mais: uma cidade gostosa como Bukhara merece mais tempo, é para ser namorada. Mas o dia seguinte nos reservava um lugar no trem para Samarkand.

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Sobre encontros e pessoas

            Quando viajamos, somos tocados de diversas maneiras e as lembranças, quando voltamos, refletem isso, à conta-gotas. Às vezes, no meio de um dia de trabalho, olhando para uma planilha, surge uma imagem de uma paisagem sublime, que fez chorar de tanta beleza e grandiosidade. Ou pode ser dentro do carro, no meio do trânsito: o passeio por uma rua deserta de casas coloniais numa cidade asiática é revivido. Conversamos com amigos e o assunto é inevitável: podemos voltar por segundos no tempo e reviver a sensação de ver, pela primeira-vez, Machu Picchu, Angkor Wat, a Torre Eiffel ou o Taj Mahal.

            Talvez reste uma lembrança de um momento pessoal, que o cenário faz deixar mais doída a saudade. Ou ainda a memória do prazer físico, como a de um prato que se provou em lugar inesperado e que ainda revive a sensação nas papilas da textura e do sabor.

            Mas pode ser também que alguns rostos surjam. Pode ser uma senhora que ajuda no metrô, um quitandeiro que oferece frutas pra provar. Pode ser outro turista que uma espera qualquer reúne, um dono de pousada que oferece doces de sua própria casa como um mimo, um garçom que te leva para a cozinha para escolher a sobremesa mais fresca. Um anfitrião que vai além e te considera como alguém da família.

            Cada vez mais os rostos povoam as minhas memórias. E, enquanto escrevo esse post, me lembro de tantas cenas que um sorriso se instala permanentemente e até lágrimas ameaçam aparecer. Quantas pessoas incríveis já passaram pelo meu caminho, desde amizades que se aprofundaram, até mesmo contatos rápidos, que não puderam ir além pela própria natureza mutante/andarilha da viagem? Muitas vezes, nem precisa muito: um olhar e um sorriso são suficientes para estabelecer uma afinidade. Mas é preciso continuar, andar, seguir adiante.

            Nem sempre os encontros fluem facilmente: um traço de timidez ou introspecção podem levar o viajante a exercer mais o seu lado voyeur que interativo. Nem todos têm aquela facilidade de contato que, não só enriquece a experiência de viajar, como também ajuda muito em questões práticas. Me lembro de ficar fascinada, tímida que era quando adolescente, em ver meu pai fazendo amizades, ainda que efêmeras, em lugares estranhos para nós, como quando o surpreendemos conversando animado com um vendedor de frutas em um mercado alemão. O senhor era turco e, embora não houvesse nenhuma língua em comum entre eles, estavam se divertindo e rindo.

            Mesmo tendo o dom de conseguir estabelecer uma conexão com estranhos, o conhecimento da língua estrangeira sempre ajuda. Poder comunicar idéias completas, discutir e entender humor e ironia é uma habilidade que potencializa incrivelmente as experiências que tornam uma viagem inesquecível. Como nem sempre isso é possível, muitas vezes o fato de conhecer algumas frases básicas, estudadas no vôo de ida, ajuda muito não só a conseguir uma informação, mas também a abrir um sorriso.

            Vencida a timidez e adquiridos conhecimentos de outras línguas, seja em que nível forem, tudo começa a fluir com mais naturalidade. Mesmo assim, algumas culturas favorecem o contato, outras não. Existem lugares onde as pessoas querem saber de você, perguntam e falam de si. Em outras, não é de praxe puxar conversa com estranhos. Ou já recebem tantos turistas que o estrangeiro é apenas mais um na multidão, não suscita curiosidade. Nesse aspecto, algumas das minhas melhores experiências foram em lugares como o interior da Bahia, o Camboja, o Peru, a Índia, Minas Gerais, a Turquia, o México, a Grécia, a Costa Rica.

            Houve uma adição recente a esta lista, e com muito entusiasmo: o Uzbequistão.

            Eu não tinha muitas expectativas neste sentido. Sabia que era um povo relativamente isolado do cenário mundial pela sua história de submissão a ditaduras e pela própria posição geográfica, fora dos principais eixos econômicos. Talvez fossem desconfiados. Talvez fossem frios.

            Mas percebemos logo no primeiro dia que a teoria não fazia sentido. As pessoas sorriam, cumprimentavam, eram gentis. Recebíamos muitos olhares, mas nada que nos deixasse incomodados – era uma curiosidade inofensiva.

            A dificuldade na comunicação não era empecilho para que sentíssemos: somos bem-vindos aqui. E quem falava inglês naturalmente queria esticar a conversa e saber um pouco mais dos dois turistas de quem não conseguiam adivinhar a nacionalidade.

            Nos bazares, nas bancas de frutas, nos mercados: era natural que nosso olhar de interrogação fosse respondido com uma oferta de fruta, queijo ou lingüiça defumada, como aconteceu com a banca na beira de estrada, em que nos ofereceram para experimentar vários tipos de melões, antes que escolhêssemos o nosso.

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            O comércio oferece naturalmente as melhores oportunidades de contato, é uma desculpa perfeita para puxar assunto. E nós aproveitamos sempre que possível, ainda mais aqui, considerando que o Uzbequistão é um país com tradição no comércio e na hospitalidade - tantos séculos testemunhando o fluxo de produtos, pessoas e ideias pela rota da Seda, do qual era peça central.

            Vemos essa influência se estender até os dias de hoje, enquanto observamos uma menina orgulhosamente nos recepcionar na loja de tapetes de sua família em Bukhara e abrir um tapete atrás do outro…

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            …engatar no papo com Jamal, um restaurador e reciclador de tapetes, enquanto ele explica seu trabalho, sem pressa, mesmo sendo o único funcionário de sua loja…

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            …ver a efervescência feminina de vendedoras e compradoras no bazar do ouro de Bukhara.

            E não só isso: tivemos várias experiências de generosidade, como no caso do bazar Chorsu e em Samarkand, quando a vendedora do bazar Siob nos vendeu um quilo das ameixas mais doces que já provamos pelo preço de meio, simplesmente porque não conseguia pesar quantidades menores em sua balança. E, como no caso do mocinho dos iogurtes de Tashkent, não aceitou pagamento pelo produto extra que recebemos.

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            Ou ainda a dupla de irmãos no bairro antigo de Samarkand ao redor do mausoléu Gur-e Amir, que mantinha impecável o mercadinho familiar: gentis e de uma curiosidade tímida, não tinham um troco pequeno para nossas compras. Falamos que estava tudo certo, sem problemas, ele não se conformou: colocou mais alguns produtinhos na nossa sacola.

            A honestidade, hospitalidade, discrição e delicadeza dos uzbeques eram uma daquelas maravilhosas surpresas de viagem e então foi natural constatar a doçura e a educação de suas crianças…

            …que mesmo nos bairros mais simples, brincavam felizes e bem cuidadas.

            Já os mais velhos, reunidos nas chaikhanas, as tradicionais casas de chá, continham sua curiosidade e nos cumprimentavam respeitosamente, às vezes interferindo na nossa escolha com suas sugestões do que deveríamos comer.

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            Nas mesquitas, éramos recebidos com um sorriso e convidados a entrar, até mesmo numa sexta, dia santo. O ambiente predominantemente masculino não impediu um convite sincero para que até mesmo eu, mulher não-muçulmana, entrasse para participar das orações.

            Estávamos em outubro, época preferida para os noivos celebrarem seus casamentos e os víamos em todo lugar. Infelizmente não tivemos a oportunidade de presenciar uma festa, mas tive a mais enfática expressão de apreciação vinda de uma mãe de noivo (ou noiva), na hora das fotos do casal: depois de uma conversa extremamente animada, nos despedimos e ela fez questão de tascar um selinho em mim! (É a senhora do meio da foto abaixo.)

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            Nós nos divertimos muito, nessa e em outras ocasiões. Uma vez fomos parados no meio da rua num bairro tradicional de Samarkand por um senhor que saiu de seu carro, para dar alguns dos pães quentinhos que lotavam seu carro para nós: tinha acabado de nascer o seu neto e ele fazia questão de dividir sua felicidade com a comunidade. Nós fomos sortudos de estar ali bem naquele momento e partilhar um pouco da celebração.

            Um pouco à frente, vendo que eu fotografava as casas antigas, uma mulher me abordou e me levou para mostrar a sua, fazendo questão que eu posasse com ela na frente do seu portão.

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            Em Khiva, a senhora que controlava os ingressos para a torre de observação de Kuhna Ark quis saber tudo de nós e se despediu com beijos altos em nossas bochechas…

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            …e pouco tempo depois, na saída da fortaleza, nos encontramos com um grupo grande de turistas uzbeques vindos do leste do país: todos nos cumprimentaram com grandes sorrisos e as mulheres, em especial, me cercaram por todos os lados – seguiram-se muitas perguntas, fotos e filmagem juntas e beijos de despedida.

            O guia que os acompanhava era o mesmo que tínhamos contratado para nos levar às fortalezas antigas do Karakalpakstan no dia seguinte: falava pouquíssimas palavras de inglês, mas o sorriso e a cortesia compensavam a falta de informações (que supríamos com nossos guias de papel).

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            Aliás, os motoristas e as guias foram um capítulo à parte: nos ajudavam em tudo, às vezes atuando como tradutores, em outras ultrapassando o tempo combinado para nos mostrar lugares fora do comum. A Galina (de Tashkent), a Nazira (de Bukhara) e a Valentina (de Samarkand) não só dominavam cada uma de suas cidades, como foram excelentes companhias em nossos dias uzbeques. Tinham paciência infinita com nossa curiosidade, inclusive com relação a assuntos espinhosos (como a ditadura de Karimov e o período soviético) e acabávamos sempre falando sobre nossas respectivas vidas pessoais. Foram imprescindíveis para uma compreensão maior da sociedade uzbeque, que tanto nos encantava e que se permitia ser espiada por nós no pouco tempo que tínhamos no país.

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            Além dos incríveis uzbeques, pudemos nos conhecer viajantes de várias partes do mundo, algumas vezes encontrando os mesmos em várias cidades, já que o melhor circuito é um pouco óbvio e quase todo mundo o segue. Em especial tivemos a sorte de conhecer a Karin e o Wolff, um casal de senhores alemães: nós duas acabamos engatando uma conversa enquanto eu fotografava, esperando o almoço na yurta de Ayaz-Kala. Chegaram os maridos e a conversa continuou a fluir. O assunto: viagens, claro, especialmente a Etiópia, que tinham acabado de visitar. Acabamos nos encontrando por acaso no outro dia em Bukhara e jantamos juntos nas duas noites, nos despedindo já com saudades.

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            Foram tantos encontros felizes e certamente estou esquecendo vários deles aqui. Mas cada um deles, ao seu modo, contribuiu para que a viagem desenvolvesse num crescendo, cada momento feliz somando-se aos outros e à beleza de cada lugar que estávamos tendo a maravilhosa oportunidade de ver.

            Dormimos em hotéis simples, comemos espetinhos em chaikhanas de beira de estrada, frequentamos alguns dos banheiros mais imundos que já vimos. Mas se existe um luxo ao viajar, esse é o de se sentir bem-vindo e em casa, mesmo estando a milhares de quilômetros da sua. E esse luxo o Uzbequistão oferece de sobra.

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