Em busca da foto perdida

               Adoraria ter tido mais tempo em Jaipur – ele teria sido útil para explorar melhor o centro e o bazar ou permitir uma visita ao Moti Doongri, que víamos à noite, iluminado, dos jardins do nosso hotel. Poderíamos até fazer uma nova visita ao Amber Fort e a cidade abaixo dele, que tanto nos empolgou.

            Um dia a mais em Jodhpur seria perfeito para vermos a cidade com calma, coisa que teríamos feito se o nosso vôo para lá não tivesse sido cancelado (nos deixando apenas como opção seguir pela estrada).

               Até Delhi, que tantos detratam, merece mais dias (ou mais visitas): a cidade é complexa e interessante, cheia de camadas históricas. Ela representa bem as contradições da Índia atual, com sua cidade antiga medieval e a nova Delhi planejada do século XX.

               Mas não: a escolhida em que iríamos passar mais tempo era Udaipur. Ela já tinha conquistado seus pontos comigo aos poucos, naquele processo de apaixonamento por lugares que não sabemos explicar muito bem como começou: se não foi amor à primeira vista, a conquista deve ter sido lenta e paciente, uma reportagem aqui, um relato de amigo lá e quando percebemos a vontade já tomou conta.

               No meu caso, eu tinha uma idéia de Udaipur como repositório de uma Índia perdida e romântica, salas de palácio vazias em tons amarelados, cheias de passagens em arco, uma luz de fim de tarde fazendo imaginar a história passada ali. Tenho que admitir que 007 contra Octopussy, algum tempo depois, me deu imagens mais concretas como base para sonho. E uma foto, em especial, arrematou tudo: um jardim e mesas, uma árvore grande fazendo sombra sobre eles, à beira do lago, com vista para um palácio. Não me perguntem onde eu a vi, se era parte de alguma matéria e em que veículo, mas o fato é que eu me peguei desejando muito um dia ir a Udaipur. E não só isso: queria achar esse cantinho e fazer a minha própria foto dele.

               O caminho até Udaipur é totalmente diferente dos que vemos em outras partes do Rajastão: já não temos o deserto nos acompanhando, mas montanhas e vales cheios de vegetação tropical, rios correndo ao longo da estrada. Água também não é um problema na cidade: ela vive à beira de vários lagos artificiais, sendo o mais famoso o Pichola. Além de proporcionar paisagens lindas (e curiosas) de onde quer que se esteja na cidade, eles ainda são um ponto de encontro dos moradores, que saem para passeios junto à água no final da tarde ou nos fins de semana, algo parecido com a passeggiata.

 

               Nos hospedamos à beira do lago, com vistas para o centro antigo e o Palácio da Cidade, na margem oposta. Foi sentada em um banco nos jardins do hotel, observando o cenário em meio às brumas da manhãzinha, que percebi que já tinha visto aquele perfil de construções: claro, na ‘minha’ foto. Comecei então a pesquisar o mapa da cidade em busca de algum lugar que pudesse proporcionar aquela mesma perspectiva.

               Achei possibilidades, mas tínhamos outros planos para aquele dia: um almoço marcado no Lake Palace, um ícone de Udaipur – era ali, no palácio branco no meio do lago, que tinham sido filmadas algumas das cenas mais interessantes do filme, o palácio da Octopussy.

               Ao tomar o barco que iria nos levar do nosso hotel até o Lake Palace, percebi que estaríamos perto de um dos possíveis lugares da foto, mas, como ele passou longe da margem, não pude comprovar. E me esqueci um pouco da busca almoçando um dos meus pratos indianos favoritos, murgh makhani acompanhado de butter naan, com a sensação de flutuar sobre o lago, olhando o palácio do outro lado.

 

               O Palácio da Cidade é o lar do maharana (marajá) de Udaipur, dividido entre a área íntima da família, um hotel (que também serviu de cenário para o filme) e a área histórica que pode ser visitada. Por fora é uma construção sólida, de cor dourada, com muralhas altas – dentro é um catálogo das mais lindas artes decorativas: afrescos, entalhes, mosaicos de vidro, espelhos, azulejos…

               Toda essa cor e delicadeza é embrulhada em cômodos entremeados por jardins, cada cantinho oferecendo uma vista perfeita do lago, das montanhas, da cidade…

…e até mesmo do nosso hotel.

               Mesmo já tendo visitado o palácio no dia anterior, iríamos vê-lo novamente e soubemos disso conversando com o gerente do Lake Palace. Falando sobre o filme, o hotel e a beleza do complexo em frente, ele mencionou que no dia seguinte à noite aconteceria ali a tradicional festa do Kartik Poornima em homenagem a Brahma, o criador. A comemoração é sempre na lua cheia do mês de Kartik (entre novembro e dezembro) e em Udaipur o marajá é o anfitrião. Uma parte dos convites é aberta ao público e resolvemos conferir: poderia ser espetacular, certo?

               Certo: a noite foi realmente inesquecível e provou que o marajá star, que adora a mídia, sabe mesmo receber. O grandioso pátio do palácio estava lindamente decorado, bebidas e canapés nos faziam esperar uma cena curiosa: a entrada do antigo soberano e sua família, acompanhados de banda marcial – os marajás perderam todo o seu poder de governo com a independência indiana, mas ainda detêm suas propriedades e títulos. Fogos sobre o lago marcam o início da festa e em seguida a apresentação da orquestra de câmera de Madras com o incrível flautista Bernard Wystraete. Alguns discursos e um delicioso jantar depois, voltamos para casa felizes com a coincidência da data e a oportunidade.

 

               No dia seguinte tive que adiar a busca, mas com bons motivos: um deles era visitar a área do mercado, já que eu e meu querido adoramos descobrir o que cada lugar tem de melhor, experimentar a agitação do dia-a-dia, ter uma idéia mais precisa da autenticidade do cotidiano.

               A Índia foi um prato cheio para isso e o de Udaipur talvez tenha sido o mais bacana que vimos na nossa viagem: frutas e verduras brilhantes de tanto frescor, cestos e balaios, cocos para uso nos templos, cereais, utensílios de cozinha (vontade de trazer uma panela para cozinha mogul) e muito mais.

               À tarde, os estímulos e a agitação do mercado foram substituídos pela calma e beleza, quando seguimos para os arredores da cidade para visitar alguns templos antigos. Antigos e simplesmente maravilhosos…

               O primeiro complexo, à beira de um lago em que se banhavam búfalos e crianças, era o Sas Bahu, do século XI. Eu já tinha visto muitos templos na viagem, sejam hinduístas, jainistas ou sikhs, e achava que nada mais me surpreenderia depois de Ranakpur, mas a beleza dos entalhes e do entorno me captaram. O silêncio era quase absoluto, só quebrado pelos risos das crianças ao longe. As esculturas em pedra tinham motivos misteriosos e ao mesmo tempo modernos, me lembrando linhas art déco. No meio do lago, a ponta de um templo afundado, que surgia em completo somente na época da seca. Os templos em pedra em primeiro plano, grandes árvores em verde claro ao fundo. Pássaros, flores crescendo em meio às pedras. Com certeza você já passou por essa experiência de estar em um lugar tão excepcional que a vontade é de absorver intensamente cada segundo. E de não querer ir embora.

               Foi com relutância e muitas olhadas para trás que fomos embora, mas ainda tinha mais uma surpresa deliciosa: o templo de Eklingji, dedicado a Vishnu e um dos mais reverenciados da região, sendo também o templo pessoal do marajá. Um pouco mais antigo, do século X, o complexo tem 108 templos e nem parece tão grande olhando de fora, enquanto esperávamos o portão abrir às 17h. Nem tão grande foi a espera, nos distraindo ao contabilizar tantos olhares curiosos em cima de nós, os únicos ocidentais ali.

(foto cedida por archer10)

               A porta é aberta e seguimos o ritual básico de tirar os sapatos, depois comprando guirlandas de flores. Seguimos para outra fila e continuam os olhares: alguns riem, outros só observam, mas não percebemos nada mais que curiosidade. Entramos então de verdade no complexo, templos e mais templos enfileirados, com o principal ao meio: foi para lá que seguimos, testas pintadas, envolvidos pela música circunspecta e incenso. Depositamos nossa oferenda em frente às quatro faces de Vishnu e saímos, os rostos tranqüilos orando ficaram dentro do templo.

(foto cedida por archer10)

               Passeando pelo complexo, encontramos mais uma família curiosa e também corajosa: um grupo de mulheres sorridentes de todas as idades me cercou, uma senhora idosa estimulando uma pequenina a me tocar. Uma das moças falava inglês, me fez perguntas e elogios e ao final todas se despediram respeitosamente. Fiquei tocada pelo encontro breve, pois além de carinhosas, elas representaram um dos poucos contatos que tive com as mulheres indianas – no turismo os prestadores de serviços são quase todos homens e elas, em geral, são bastante tímidas. Pena não poder tirar fotos ali dentro, uma vontade de registrar aquele lindo conjunto de mulheres.

(foto de www.esamskriti.com)

               Chegou o nosso último dia na cidade e com ele o fim da nossa viagem mais que marcante, inesquecível. Eu e o Arnaldo sentíamos uma tristeza grande, uma espécie de banzo indiano. Tínhamos quase o dia todo antes de irmos para o aeroporto e decidimos aproveitá-lo bem, curtindo mais uma vez o centro e com o objetivo de achar o meu lugar em Udaipur. Andamos pelos ghats até um dos portões de entrada da cidade antiga, seguindo as ruelas no sentido do palácio e dos templos principais.

               Passamos pela região de Lal Ghat e descemos pelo outro lado, atravessando novamente um dos braços do lago. Era ali que ficava uma pontinha de terra que avançava nele e onde, pelos meus mapas, havia um restaurante. Era minha aposta e não me desanimei com as ruas quase desertas.

               Entrando aqui e ali, chegamos ao Ambrai, um simpático hotel. Continuei atravessando pelo seu pátio até que o encontrei, o meu lugar: um jardim e mesas, uma árvore grande fazendo sombra sobre eles, à beira do lago, com vista para um palácio.

               Mas agora eu podia ver também que dali havia também uma vista linda para o Lake Palace e para um ghat próximo, onde pessoas se banhavam e lavavam suas roupas.

               O sol deixava o Palácio da Cidade dourado e fazia a água brilhar, agitada de vez em quando pelos barquinhos que passavam lentamente. O resto era todo igualzinho ao que eu tinha visto na foto original, mas com uma diferença brutal: dessa vez eu estava ali e fazia parte da paisagem.

                O final perfeito para uma viagem perfeita…só que deixou ainda mais difícil a tarefa de sair do centro histórico, sair do nosso hotel, sair de Udaipur, sair da Índia.

No coração de Minas

       Estava com vontade de escrever este post há muito tempo e, apesar de já terem se passado cinco anos dessa viagem, ela estava fresca na minha cabeça. A oportunidade veio com um convite para escrever um post: o Estado de Minas está lançando um portal de turismo novo, o Wikiminas, que tem uma proposta muito bacana. Além das informações básicas sobre os destinos, a idéia é ter usuários e visitantes acrescentando informações e criando um banco de dados cada vez mais completo e do ponto de vista de quem já foi e conferiu. Como um dos meus destinos queridos no Brasil, eu só posso ficar feliz e participar da iniciativa. Dêem um pulo e confiram o projeto!

       Mesmo tendo nascido e vivido toda minha vida em São Paulo, sou uma entusiasta de Minas Gerais, em boa parte por conta da origem de meus pais. Minhas visitas quando criança a um certo canto do sul de Minas me levaram a gostar de cada pequeno indício de que eu estava do outro lado da divisa: as casas antigas de colonos, os coqueiros no meio dos pastos, as cerquinhas tortas, os riachos com taboas…até mesmo as placas enferrujadas e asfalto esburacado me faziam sentir em outro território.

       Outras imagens queridas retornam, de quando chegávamos à cidade com a visão dos casarões de estilo eclético, o carro tremendo sobre o piso de paralelepípedo, o som das vozes que me cumprimentavam naquele sotaque mineiro delicioso: “Emilinha!” Poderia continuar aqui com tantos outros detalhes, mas, apesar de talvez deixar alguns relembrando suas próprias memórias infantis, esses são registros totalmente pessoais, praticamente indescritíveis. Melhor ficar aqui com o outro motivo que me leva sempre a voltar para Minas e que está ao alcance de todos: o seu conjunto de atrações naturais, históricas, culturais e humanas que não se parece com nada do que temos em outras regiões do país.

       Talvez o melhor lugar para sentir a originalidade de Minas seja o circuito das cidades históricas: é irresistível a combinação do patrimônio colonial com todas aquelas particularidades mineiras. Como não se sentir acolhido pelo relevo montanhoso e a gentileza e discrição de quem você encontra pelo caminho? Eu costumo brincar que essa região é o equivalente brasileiro do interior francês, quando você sai no seu carro explorando as pequenas cidades antigas, curtindo a paisagem de campo, comendo bem.

       Essa é a oportunidade de mergulhar em uma parte fundamental da história brasileira, o Ciclo do Ouro, quando Minas foi o centro da exploração deste metal e de pedras preciosas, especialmente no século XVIII. A riqueza material permitiu um desenvolvimento cultural nunca visto antes na história e é esse reflexo na educação, arquitetura, música, literatura e artes plásticas que é possível ainda sentir nas cidades históricas. Sobre esse assunto fantástico, especialmente o surgimento do barroco mineiro, sugiro fazer uma visita ao Fatos & Fotos, que tem posts detalhados e com muita pesquisa.

       Sortudos os próprios mineiros e também os que estão pertinho, como paulistas e cariocas, que podem sair, como eu, numa bela manhã em direção a Tiradentes, minha primeira parada ao percorrer o caminho, na companhia sempre fantástica da minha mãe: brincava que era uma vergonha uma mineira não conhecer as maravilhas do seu próprio estado e que iríamos resolver essa falha de currículo :-D

       Chegar à cidade foi como entrar em um cenário de conto de fadas: como podia existir um chuchuzinho de cidade assim? Preservada, pequena, atmosférica. Os detalhes das casas e das primaveras debruçadas sobre os muros atraem os fotógrafos, que têm aqui inspiração de sobra para vários cliques.

       E todos conferem os antiquários e as lojas, já que esta é uma região tradicional de artesanato de qualidade – fica em Bichinho, distrito a alguns quilômetros da cidade, a sede da Oficina de Agosto, famosa dentro do Brasil e fora. A vila foi bem retratada aqui, neste post do Fatos & Fotos.

        Mas o melhor mesmo é bater perna, curtir a calma de cidadezinha que parece estar fora do tempo presente, e visitar a igreja matriz de Santo Antônio. Ela é uma das mais lindas igrejas do barroco mineiro e o brilho do ouro que a recobre pode ser conferido de dia, mas também à noite se for dia de concerto na matriz.

       Chegar até ela já é um prazer, se for pela subida suave  através da rua Padre Toledo, a mais perfeita tradução de Tiradentes, de uma beleza concentrada. No pátio da igreja, a atração principal, além da fachada de Aleijadinho, é a vista da cidade e da serra de São José – um paredão de pedra que protege Tiradentes e faz com que cada um se sinta aconchegado aos pés dela. Vale a pena uma caminhada pela crista da serra, suas vistas, mata e rios. Outra possibilidade de caminhada é a que acompanha o canal que traz água da nascente até o Chafariz de São José, chamado de Mãe d’Água.

       E como não falar do conjunto fabuloso de restaurantes? Difícil acreditar na quantidade e qualidade deles numa cidade tão pequena, mas é fato a tradição gastronômica de Tiradentes, com algumas das melhores casas de comida mineira do Brasil, além de opções francesas, italianas… É só escolher: Tragaluz, Viradas do Largo, Estalagem, Theatro da Villa e muitos outros.

       Tiradentes é uma ótima base para ir até a vizinha São João del Rey, que, se não é tão charmosa quanto, compensa com seu patrimônio arquitetônico: a Igreja São Francisco de Assis e suas palmeiras imperiais, o Solar dos Neves, a Catedral Nossa Senhora do Pilar e as suas ruazinhas cheias de casarões anônimos que merecem um olhar calmo. A melhor maneira de fazer a visita é seguir pela maria-fumaça que percorre em várias viagens por dia o caminho entre as duas cidades.

(foto de Emília)

       Difícil se despedir de Tiradentes (quem quiser continuar a viagem, sugiro uma visita aqui), mas seguir é preciso – próxima parada:  Congonhas, para uma visita aos doze profetas de pedra-sabão esculpidos por Aleijadinho. A cidade não tem atrativos, mas o complexo da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos compensa totalmente a parada. O complexo, que ocupa o topo de uma colina e uma boa parte de sua encosta, inclui o adro e escadaria da igreja com os magníficos profetas, a própria e sua curiosa sala de ex-votos e também as Capelas dos Passos com esculturas em madeira, na maior parte feitas por Aleijadinho. A Unesco reconheceu em 1985 a importância da basílica e a transformou em Patrimônio Mundial.

(foto de Emília)

       Daqui segue-se por mais um trecho de estrada até a grande estrela das cidade históricas de Minas – Ouro Preto. A minha primeira impressão não foi muito positiva: tendo saído da encantadora Tiradentes, foi um choque ver o centro histórico perdido no meio de morros cheios de casas de construção recente e sem nenhuma relevância arquitetônica (além da frustração de tentar me encontrar nas ladeiras estreitas e sem sinalização). Ouro Preto só me conquistou mesmo à noite, quando saímos pela cidade quieta em direção à praça Tiradentes, percorrendo as vielas cheias de bruma.

       Ela tem razão em sua fama: o conjunto dos seus casarões históricos, igrejas e museus é simplesmente precioso. As suas ladeiras diminuem o ritmo da visitação, o que é perfeito para manter o equilíbrio entre olhar para o alto, para observar os detalhes das construções, e para baixo, para não tropeçar no calçamento irregular. Não há mesmo porque ter pressa…no meio do caminho para a Casa dos Contos tinha um chafariz, e dali para a Matriz Nossa Sra. do Pilar tinha um café com broa de milho e de volta ao Museu da Inconfidência tinha um buffet mineiro no restaurante Chafariz.

       Difícil manter a contagem das suas igrejas e até pode-se pensar que é uma visitação cansativa depois de algumas, mas a verdade é que não dá para resistir a entrar em várias delas, já que cada uma tem uma característica exclusiva. Cada uma delas vale a visita: as matrizes, a Nossa Sra. do Rosário dos Pretos, a Santa Efigênia…Mas para mim é incomparável a Igreja de São Francisco de Assis , obra-prima de Aleijadinho e de mestre Ataíde. O primeiro conseguiu com seu projeto criar uma igreja de exterior compacto e harmonioso - era uma delícia parar para vê-la sempre no caminho para o hotel. O segundo pintou o seu teto com a cena da assunção de Nossa Senhora da Conceição que é bela e emocionante, um desafio conseguir sair da igreja sem várias apreciações demoradas.

       Um bate-e-volta até Mariana é rápido e vale a pena encaixar numa manhã, especialmente para ver a Catedral da  Sé com seu órgão espetacular (se der sorte você pode ver alguma das apresentações). Mas o cenário ainda mais característico de Mariana é a composição da praça Minas Gerais, com seus três lados tomados pela Casa de Câmera, a primeira do país, e também pelas igrejas de São Francisco e do Carmo. Uma foto da sacada da primeira, captando as outras duas, é um clássico dos álbuns de viagem.

 (foto de www.redelivredecultura.com.br)

       Na volta, se estiver de carro, vale uma visita à Mina da Passagem, para ter uma idéia de como funcionava a atividade que deu origem a toda esta ‘civilização’ que floresceu no interior mineiro no Ciclo do Ouro.

       Antes de seguirmos para Belo Horizonte, um desvio pelas cidades de Santa Bárbara e Catas Altas para visitar o isolado Santuário do Caraça, em meio à serra de mesmo nome. Fundado no início do século XIX como um colégio, funcionou até a década de 60, quando um incêndio destruiu parte de um dos dormitórios. Hoje a construção gótica e a reserva natural na qual está inserida foram transformadas em pousada, área de pesquisas e centro religioso. As acomodações são simples, mas a beleza do lugar compensa: as trilhas levam a cachoeiras e mata de cerrado, e bichos como jacus e caxinguelês podem ser vistos até da janela do quarto, aberta para o jardim.

(foto de Emília)

       Mas a principal atração animal aqui é o lobo-guará: todas as noites os padres os esperam com carne no pátio da igreja. Os visitantes podem observar em silêncio, mas há que se ter paciência e agüentar um pouco o frio da noite para ver seu caminhar elegante subindo a escada, o olhar desconfiado e finalmente o seu jantar. Um momento emocionante, assim como outro mais simples, mas de que nunca me esqueço: observar o fim de tarde na escadaria da igreja, ouvindo os pássaros e a fonte do jardim francês, a luz do sol entre a mata e os coqueiros, o cheiro de fogão a lenha preparando o jantar. Pura paz.

       Nos arrependemos de não termos dedicado mais um dia ao Caraça, mas era hora de começar a pensar na volta. No caminho para a capital, última parada em Sabará para uma visita muito específica: a pequena igreja de N. Sra. do Ó, extremamente simples no exterior. A surpresa é entrar e ver uma igreja ricamente ornamentada e com inusitados motivos orientais. Muito vermelho e dourado, santos com olhinhos puxados, dragões. Como eu tinha dito, é difícil cansar das igrejas, sendo cada um tão diferente da outra, todas lindas e interessantes…

       Mais um bocadinho de estrada e chegamos a Belo Horizonte, as suas ruas enfeitadas com ipês rosas cheios de bolas de flores. A cidade para mim é muito querida, já que na minha primeira vez nela, a trabalho, tive uma das melhores recepções: pessoas gentis, abertas, preocupadas, que marcaram positivamente o lugar, em definitivo.

(foto de Emília)

       Um pato delicioso no Taste Vin, uma parada na Pampulha, outra no Mercado Municipal (muitas comprinhas de doce de leite e queijo canastra) e estávamos voltando para São Paulo. Até hoje nos lembramos com carinho e saudades de uma viagem divertida, tranqüila, bela. Completa, enfim.

       Deixo um super agradecimento ao Arnaldo pelo empréstimo da maioria das maravilhosas fotos deste post (aquelas que não tem indicação de crédito). Se eu pudesse colocar todas…  Não dá para colocar todas, mas aqui estão os álbuns do Arnaldo no Flickr:

Tiradentes:

http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157609888450444/show/

Ouro Preto:

http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157606793085122/show/

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Outras viagens…

       O novo Frugal Traveler (The New York Times), Seth Kugel, conhece muito bem o Brasil e fez uma belíssima matéria sobre quase o mesmo roteiro, leia aqui.