As fotos abaixo podem confundir os que observaram a categoria deste post e seus tags: o que mosteiros medievais têm a ver com Nova York?

              Um tem tudo a ver com o outro desde a década de 30, quando foi construído The Cloisters: um museu especialmente dedicado à arte medieval, ligado ao Metropolitan Museum of Art.

              O maior entusiasta e patrocinador deste início foi o industrial John D. Rockefeller Jr., que doou sua coleção particular para formar o acervo. O museu é excepcional por uma série de razões, sendo uma delas resultado também de sua iniciativa: após adquirir terras ao norte da ilha de Manhattan, ele as cedeu para a construção do Cloisters, um museu instalado no lindo Fort Tryon Park.

              Além do prazer de estar numa área tão bucólica e pouco conhecida dentro de Nova York, as vistas que se têm dos mirantes do museu são fantásticas: ele está num ponto alto, na beira do rio Hudson. E, como se ainda não bastasse, a outra margem é também um parque: um belíssimo conjunto de falésias e mata (também doado, com objetivo de preservação, por Rockefeller para New Jersey). É uma deliciosa sensação ter uma visão inesperada dessas numa cidade tão explorada/estudada/destrinchada turisticamente como Nova York!

              O mais curioso é que eu sempre recomendei a visita para quem me perguntava sobre a cidade, mesmo sem nunca ter ido ao lugar. Um grande amigo meu acatou a sugestão e voltou maravilhado…e surpreso por saber que eu ainda não o tinha visitado :-D  Eu não sabia deste anexo do Metropolitan na primeira vez em que estive na cidade, há uns 15 anos atrás, e nesta vez eu não perderia a oportunidade.

              Para começar surpreendendo-se, não espere um edifício convencional: o Cloisters é uma réplica de mosteiro medieval. E antes que soe como algo ‘disneyano’, a razão para isso é também justamente o porquê do nome – The Cloisters é justamente uma coleção de…claustros!

              O museu adquiriu de coleções particulares grandes partes de claustros franceses, além de outras estruturas medievais, e os remontou, estruturando todo o museu em torno deles. Com isso, ao andar pelo museu, você se sente em uma estrutura híbrida: paredes com blocos autênticos entremeados com réplicas, tudo muito bem sinalizado, demonstrando onde termina o original e onde começa o complemento atual, como se percebe claramente na parede da direita, na foto abaixo…

…além de portais de pedra medievais em paredes reconstruídas e outras combinações incríveis do novo recebendo o antigo.

              Surpresa e encantamento são as sensações de quando se entra no primeiro claustro, o de Saint-Guilhem-le-Désert, do mosteiro no Languedoc. A luz entra no ambiente por um belo teto de vidro que filtra de maneira etérea os raios de sol…

…lançando um jogo de sombras sobre a colunata esculpida no século XI: uma seqüência originalíssima de diferentes padrões de escultura – flores, ondas, padrões geométricos, folhas…

              Uma pequena fonte tem o poder de movimentar essa beleza austera com a sempre bem-vinda água, além de trazer um barulho suave ao ambiente, cheio de turistas boquiabertos e silenciosos.

              Sempre me fascinou o fato de se encontrar tão longe de sua localização original, num país de contexto histórico totalmente diferente e como tudo isso aconteceu. Na verdade, a história do claustro de Saint-Guilhem é a mesma de tantos outros mosteiros e construções religiosas na época da Revolução Francesa: os monges foram expulsos pelo movimento, suas obras de arte vendidas e a estrutura ocupada para fins produtivos ou simplesmente abandonada.

              Neste caso, as peças do claustro foram parte de uma saga que envolveu uma grande dose de descaso e mesmo de dilapidação (um construtor que adquiriu o lugar o usava como ‘pedreira’), com fases em que caíram em mãos interessadas na preservação: é caso do juiz que adquire, no século XIX, uma parte significativa do claustro, sendo revendido depois para um antiquário, vindo a cair finalmente nas mãos de um escultor americano, Georges Gray Barnard, de quem Rockefeller comprou a coleção, junto com as peças dos outros três claustros do museu.

              Até hoje a cidade lamenta a perda do patrimônio histórico, reivindicando que o claustro é melhor entendido dentro do contexto de Saint-Guilhem e de seus belos entornos, mas o fato é que é um verdadeiro milagre que uma parte deste claustro tenha sobrevivido a tantos eventos desgastantes. Seria realmente desejável que estivesse em seu lugar original, mas é um alívio saber que tais obras de arte estejam a salvo para que hoje possam ser admiradas e estudadas.

              O centro do museu é ocupado pelo seu claustro mais imponente, vindo do mosteiro beneditino de Saint-Michel-de-Cuxa, nos Pireneus. Quando se entra nele a impressão é de ter se transportado para o interior francês: mais que em outros claustros do museu, aqui se sente a força do desenho medieval, tanto na estrutura como na decoração.

              O sol do alto verão entrava com força total no jardim e transbordava para as galerias do claustro: com uma luz dessas, difícil não sentir o alto astral – o melhor a fazer é se sentar e apreciar. Uma bela fonte ao centro, as flores…

  

  …as colunas entalhadas com cenas bizarras, que se tornavam menos soturnas, curiosas até, com o brilho do sol sobre elas.

              O claustro, do século XII, tem uma história muito parecida com aquele de Saint-Guilhem, tendo sido também adquirido por Barnard depois de muito garimpar as peças na região do mosteiro e em Paris. Mas existe uma diferença fundamental: Saint-Michel possuía dois claustros, sendo que ainda existe um deles no mosteiro. A torre do Cloisters é uma réplica da original em Cuxa, assim como as telhas que cobrem as galerias: é fácil perceber em todos os detalhes a maneira cuidadosa como o museu foi concebido.

              O claustro de Bonnefont-en-Comminges tem uma bonita colunata, mas montadas somente em duas laterais (provavelmente não deve ter sobrado muito do original)…

…e o que realmente chama atenção aqui é o jardim que foi projetado no centro, além de uma réplica de capela gótica em um dos cantos e a linda visão do Hudson abaixo.

              O Cloisters teve o cuidado de compor seus jardins com plantas, flores e ervas cultivados na Idade Média, para tentar recriar o mais fielmente possível o ambiente da época. O jardim de Cuxa é principalmente ornamental, enquanto o de Bonnefont é o mais usado em cursos e tem a maior amostra de ervas medievais do museu.

              Ele realmente se parece mais com um hortinha organizada do que com um jardim. É muito aconchegante e familiar: nessa hora dá vontade de ter trazido um livro para se sentar numa sombra e curtir a visão do verde em primeiro plano no jardim e também ao fundo, na moldura que faz o parque.

 

              Um livro para curtir os jardins é requisito para aproveitar um dia inteiro no museu, mas não é preciso se preocupar com o almoço: é possível comer um sanduíche e outras coisinhas no café do Cloisters. Suas mesas ocupam a galeria do claustro de Trie-en-Bigorre e seu lindíssimo jardim: a idéia é recriar os campos de flores silvestres vistos nas tapeçarias medievais.

              Mas não é só de claustros que o museu é feito: seu acervo é enorme e engloba também a famosa série de tapeçarias com o tema do Unicórnio, vitrais (que decoram a capela gótica), coleção de esculturas, iluminuras e portais em pedra, entre muitas outras obras de arte.

              Uma das melhores salas é a abside da igreja de Fuentidueña, vinda por empréstimo do governo espanhol. O ambiente recriado da igreja expõe muitas peças, mas as preciosidades são mesmo este crucifixo do século XII, executado em policromia e muitas pedras incrustadas, e o afresco catalão da mesma época, retratando a Virgem e o menino Jesus, os arcanjos e Reis Magos. Aqui me lembrei de outro grande museu de arte medieval, o Museu Nacional d’Art de Catalunya, em Barcelona, com seus maravilhosos afrescos.

              Concertos de música medieval são também uma atração aqui e são realizados nesta mesma capela. Certamente uma experiência belíssima, assim como os concertos realizados em mais um museu referência na área, o Musée Cluny, em Paris: um privilégio que pude presenciar.

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              É possível chegar até lá pela linha A do metrô (Take the A train…) até a estação da rua 190 e andar um pouco ou pegar o ônibus M4 por somente uma parada. A alternativa é vir de táxi, pegando a via expressa que margeia o rio, cuja saída para o Cloisters fica logo depois da ponte George Washington.

              Em cartaz: Até o dia 13/06/2010 é possível ver a exposição The Art of Illumination: The Limbourg Brothers and the Belles Heures of Jean de France, Duc de Berry, no prédio do Metropolitan. Para quem está na cidade e não quer ir até a pontinha de Manhattan, esta é uma oportunidade para ver um pedaço do acervo.

(fotos de Arnaldo e Emília)