Estava com vontade de escrever este post há muito tempo e, apesar de já terem se passado cinco anos dessa viagem, ela estava fresca na minha cabeça. A oportunidade veio com um convite para escrever um post: o Estado de Minas está lançando um portal de turismo novo, o Wikiminas, que tem uma proposta muito bacana. Além das informações básicas sobre os destinos, a idéia é ter usuários e visitantes acrescentando informações e criando um banco de dados cada vez mais completo e do ponto de vista de quem já foi e conferiu. Como um dos meus destinos queridos no Brasil, eu só posso ficar feliz e participar da iniciativa. Dêem um pulo e confiram o projeto!

       Mesmo tendo nascido e vivido toda minha vida em São Paulo, sou uma entusiasta de Minas Gerais, em boa parte por conta da origem de meus pais. Minhas visitas quando criança a um certo canto do sul de Minas me levaram a gostar de cada pequeno indício de que eu estava do outro lado da divisa: as casas antigas de colonos, os coqueiros no meio dos pastos, as cerquinhas tortas, os riachos com taboas…até mesmo as placas enferrujadas e asfalto esburacado me faziam sentir em outro território.

       Outras imagens queridas retornam, de quando chegávamos à cidade com a visão dos casarões de estilo eclético, o carro tremendo sobre o piso de paralelepípedo, o som das vozes que me cumprimentavam naquele sotaque mineiro delicioso: “Emilinha!” Poderia continuar aqui com tantos outros detalhes, mas, apesar de talvez deixar alguns relembrando suas próprias memórias infantis, esses são registros totalmente pessoais, praticamente indescritíveis. Melhor ficar aqui com o outro motivo que me leva sempre a voltar para Minas e que está ao alcance de todos: o seu conjunto de atrações naturais, históricas, culturais e humanas que não se parece com nada do que temos em outras regiões do país.

       Talvez o melhor lugar para sentir a originalidade de Minas seja o circuito das cidades históricas: é irresistível a combinação do patrimônio colonial com todas aquelas particularidades mineiras. Como não se sentir acolhido pelo relevo montanhoso e a gentileza e discrição de quem você encontra pelo caminho? Eu costumo brincar que essa região é o equivalente brasileiro do interior francês, quando você sai no seu carro explorando as pequenas cidades antigas, curtindo a paisagem de campo, comendo bem.

       Essa é a oportunidade de mergulhar em uma parte fundamental da história brasileira, o Ciclo do Ouro, quando Minas foi o centro da exploração deste metal e de pedras preciosas, especialmente no século XVIII. A riqueza material permitiu um desenvolvimento cultural nunca visto antes na história e é esse reflexo na educação, arquitetura, música, literatura e artes plásticas que é possível ainda sentir nas cidades históricas. Sobre esse assunto fantástico, especialmente o surgimento do barroco mineiro, sugiro fazer uma visita ao Fatos & Fotos, que tem posts detalhados e com muita pesquisa.

       Sortudos os próprios mineiros e também os que estão pertinho, como paulistas e cariocas, que podem sair, como eu, numa bela manhã em direção a Tiradentes, minha primeira parada ao percorrer o caminho, na companhia sempre fantástica da minha mãe: brincava que era uma vergonha uma mineira não conhecer as maravilhas do seu próprio estado e que iríamos resolver essa falha de currículo :-D

       Chegar à cidade foi como entrar em um cenário de conto de fadas: como podia existir um chuchuzinho de cidade assim? Preservada, pequena, atmosférica. Os detalhes das casas e das primaveras debruçadas sobre os muros atraem os fotógrafos, que têm aqui inspiração de sobra para vários cliques.

       E todos conferem os antiquários e as lojas, já que esta é uma região tradicional de artesanato de qualidade – fica em Bichinho, distrito a alguns quilômetros da cidade, a sede da Oficina de Agosto, famosa dentro do Brasil e fora. A vila foi bem retratada aqui, neste post do Fatos & Fotos.

        Mas o melhor mesmo é bater perna, curtir a calma de cidadezinha que parece estar fora do tempo presente, e visitar a igreja matriz de Santo Antônio. Ela é uma das mais lindas igrejas do barroco mineiro e o brilho do ouro que a recobre pode ser conferido de dia, mas também à noite se for dia de concerto na matriz.

       Chegar até ela já é um prazer, se for pela subida suave  através da rua Padre Toledo, a mais perfeita tradução de Tiradentes, de uma beleza concentrada. No pátio da igreja, a atração principal, além da fachada de Aleijadinho, é a vista da cidade e da serra de São José – um paredão de pedra que protege Tiradentes e faz com que cada um se sinta aconchegado aos pés dela. Vale a pena uma caminhada pela crista da serra, suas vistas, mata e rios. Outra possibilidade de caminhada é a que acompanha o canal que traz água da nascente até o Chafariz de São José, chamado de Mãe d’Água.

       E como não falar do conjunto fabuloso de restaurantes? Difícil acreditar na quantidade e qualidade deles numa cidade tão pequena, mas é fato a tradição gastronômica de Tiradentes, com algumas das melhores casas de comida mineira do Brasil, além de opções francesas, italianas… É só escolher: Tragaluz, Viradas do Largo, Estalagem, Theatro da Villa e muitos outros.

       Tiradentes é uma ótima base para ir até a vizinha São João del Rey, que, se não é tão charmosa quanto, compensa com seu patrimônio arquitetônico: a Igreja São Francisco de Assis e suas palmeiras imperiais, o Solar dos Neves, a Catedral Nossa Senhora do Pilar e as suas ruazinhas cheias de casarões anônimos que merecem um olhar calmo. A melhor maneira de fazer a visita é seguir pela maria-fumaça que percorre em várias viagens por dia o caminho entre as duas cidades.

(foto de Emília)

       Difícil se despedir de Tiradentes (quem quiser continuar a viagem, sugiro uma visita aqui), mas seguir é preciso – próxima parada:  Congonhas, para uma visita aos doze profetas de pedra-sabão esculpidos por Aleijadinho. A cidade não tem atrativos, mas o complexo da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos compensa totalmente a parada. O complexo, que ocupa o topo de uma colina e uma boa parte de sua encosta, inclui o adro e escadaria da igreja com os magníficos profetas, a própria e sua curiosa sala de ex-votos e também as Capelas dos Passos com esculturas em madeira, na maior parte feitas por Aleijadinho. A Unesco reconheceu em 1985 a importância da basílica e a transformou em Patrimônio Mundial.

(foto de Emília)

       Daqui segue-se por mais um trecho de estrada até a grande estrela das cidade históricas de Minas – Ouro Preto. A minha primeira impressão não foi muito positiva: tendo saído da encantadora Tiradentes, foi um choque ver o centro histórico perdido no meio de morros cheios de casas de construção recente e sem nenhuma relevância arquitetônica (além da frustração de tentar me encontrar nas ladeiras estreitas e sem sinalização). Ouro Preto só me conquistou mesmo à noite, quando saímos pela cidade quieta em direção à praça Tiradentes, percorrendo as vielas cheias de bruma.

       Ela tem razão em sua fama: o conjunto dos seus casarões históricos, igrejas e museus é simplesmente precioso. As suas ladeiras diminuem o ritmo da visitação, o que é perfeito para manter o equilíbrio entre olhar para o alto, para observar os detalhes das construções, e para baixo, para não tropeçar no calçamento irregular. Não há mesmo porque ter pressa…no meio do caminho para a Casa dos Contos tinha um chafariz, e dali para a Matriz Nossa Sra. do Pilar tinha um café com broa de milho e de volta ao Museu da Inconfidência tinha um buffet mineiro no restaurante Chafariz.

       Difícil manter a contagem das suas igrejas e até pode-se pensar que é uma visitação cansativa depois de algumas, mas a verdade é que não dá para resistir a entrar em várias delas, já que cada uma tem uma característica exclusiva. Cada uma delas vale a visita: as matrizes, a Nossa Sra. do Rosário dos Pretos, a Santa Efigênia…Mas para mim é incomparável a Igreja de São Francisco de Assis , obra-prima de Aleijadinho e de mestre Ataíde. O primeiro conseguiu com seu projeto criar uma igreja de exterior compacto e harmonioso - era uma delícia parar para vê-la sempre no caminho para o hotel. O segundo pintou o seu teto com a cena da assunção de Nossa Senhora da Conceição que é bela e emocionante, um desafio conseguir sair da igreja sem várias apreciações demoradas.

       Um bate-e-volta até Mariana é rápido e vale a pena encaixar numa manhã, especialmente para ver a Catedral da  Sé com seu órgão espetacular (se der sorte você pode ver alguma das apresentações). Mas o cenário ainda mais característico de Mariana é a composição da praça Minas Gerais, com seus três lados tomados pela Casa de Câmera, a primeira do país, e também pelas igrejas de São Francisco e do Carmo. Uma foto da sacada da primeira, captando as outras duas, é um clássico dos álbuns de viagem.

 (foto de www.redelivredecultura.com.br)

       Na volta, se estiver de carro, vale uma visita à Mina da Passagem, para ter uma idéia de como funcionava a atividade que deu origem a toda esta ‘civilização’ que floresceu no interior mineiro no Ciclo do Ouro.

       Antes de seguirmos para Belo Horizonte, um desvio pelas cidades de Santa Bárbara e Catas Altas para visitar o isolado Santuário do Caraça, em meio à serra de mesmo nome. Fundado no início do século XIX como um colégio, funcionou até a década de 60, quando um incêndio destruiu parte de um dos dormitórios. Hoje a construção gótica e a reserva natural na qual está inserida foram transformadas em pousada, área de pesquisas e centro religioso. As acomodações são simples, mas a beleza do lugar compensa: as trilhas levam a cachoeiras e mata de cerrado, e bichos como jacus e caxinguelês podem ser vistos até da janela do quarto, aberta para o jardim.

(foto de Emília)

       Mas a principal atração animal aqui é o lobo-guará: todas as noites os padres os esperam com carne no pátio da igreja. Os visitantes podem observar em silêncio, mas há que se ter paciência e agüentar um pouco o frio da noite para ver seu caminhar elegante subindo a escada, o olhar desconfiado e finalmente o seu jantar. Um momento emocionante, assim como outro mais simples, mas de que nunca me esqueço: observar o fim de tarde na escadaria da igreja, ouvindo os pássaros e a fonte do jardim francês, a luz do sol entre a mata e os coqueiros, o cheiro de fogão a lenha preparando o jantar. Pura paz.

       Nos arrependemos de não termos dedicado mais um dia ao Caraça, mas era hora de começar a pensar na volta. No caminho para a capital, última parada em Sabará para uma visita muito específica: a pequena igreja de N. Sra. do Ó, extremamente simples no exterior. A surpresa é entrar e ver uma igreja ricamente ornamentada e com inusitados motivos orientais. Muito vermelho e dourado, santos com olhinhos puxados, dragões. Como eu tinha dito, é difícil cansar das igrejas, sendo cada um tão diferente da outra, todas lindas e interessantes…

       Mais um bocadinho de estrada e chegamos a Belo Horizonte, as suas ruas enfeitadas com ipês rosas cheios de bolas de flores. A cidade para mim é muito querida, já que na minha primeira vez nela, a trabalho, tive uma das melhores recepções: pessoas gentis, abertas, preocupadas, que marcaram positivamente o lugar, em definitivo.

(foto de Emília)

       Um pato delicioso no Taste Vin, uma parada na Pampulha, outra no Mercado Municipal (muitas comprinhas de doce de leite e queijo canastra) e estávamos voltando para São Paulo. Até hoje nos lembramos com carinho e saudades de uma viagem divertida, tranqüila, bela. Completa, enfim.

       Deixo um super agradecimento ao Arnaldo pelo empréstimo da maioria das maravilhosas fotos deste post (aquelas que não tem indicação de crédito). Se eu pudesse colocar todas…  Não dá para colocar todas, mas aqui estão os álbuns do Arnaldo no Flickr:

Tiradentes:

http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157609888450444/show/

Ouro Preto:

http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157606793085122/show/

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Outras viagens…

       O novo Frugal Traveler (The New York Times), Seth Kugel, conhece muito bem o Brasil e fez uma belíssima matéria sobre quase o mesmo roteiro, leia aqui.