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            Meu último dia em cada viagem é invariavelmente melancólico. E na volta o espírito do lugar me assombra, mas não procuro fugir dele. Algumas pessoas sentem falta de casa e já antecipam o prazer de girar a chave e voltar a entrar em território conhecido. Eu, não. Apesar de amar minha casa e ter um prazer delicioso em morar e trabalhar nela, eu não penso nela enquanto estou viajando. Acabo me envolvendo de tal modo com o que me cerca que, se não fosse as checagens diárias ao e-mail de trabalho (por obrigação) e as mensagens no Whatsapp com minha família (por pura saudade e vontade de que estivessem ali), eu mergulharia completamente no meu destino.

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            Nossa última viagem, ao Irã, não foi diferente.  Tínhamos passeado o dia inteiro por Kashan, uma cidade adorável. Tanto que me peguei praguejando: por que tinha deixado somente um dia para explorá-la? Por que, na vontade de conhecer um pouco de tudo, eu tinha me deixado levar pela ilusão de que conseguiria aproveitar a cidade?

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            Puro mau-humor, afinal tínhamos aproveitado bem a cidade. Ele tinha vindo para mascarar a melancolia, que chegaria com força no final da tarde, enquanto nosso querido Majid Agha (sr. Majid) nos conduzia pelas ótimas estradas de volta a Teerã. Enquanto comia os meus biscoitos de arroz (tinha conseguido um abastecimento deles em Esfahan, apesar de não terem a delicadeza dos de Yazd), fiquei mergulhada nas minhas lembranças. Tudo ficava para trás, apesar de ainda estar lá, de ter se passado apenas uma quinzena desde a nossa chegada na madrugada de Teerã.

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            Ainda tinha um gostinho das noites de Esfahan, as pessoas fazendo compras nos bazares ou simplesmente passeando pela Praça Naqsh-e-Jahan, iluminada e cheia de vida. Tinha acabado de ter um das melhores refeições: dizi (cozido de grão-de-bico com cordeiro) sob a abóboda secular do Timcheh Amin-o Dowleh, no bazar de Kashan, em meio às antiguidades.

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            E também já sentia saudades do começo da viagem, do calor do deserto em Kerman…

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             …e dos bazares vazios de Yazd.

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            Sentia falta das inúmeras paradas nas casas de chá, hábito fácil de se adquirir…

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            …do nosso primeiro contato com o país em Teerã, ainda perdidos, e dos jardins e poetas de Shiraz.

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            O Irã é belo. Não há como ficar indiferente à mesquita Sheikh Lotfollah, em Esfahan: é como ser abraçado, envolvido pela beleza, entre o silêncio e a penumbra.

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             Ou ficar imune aos incríveis jardins, ideais do paraíso persa. Cada um atrai numa medida diferente, como o cosmopolita Eram, em Shiraz, ou o oásis de Bagh-e Dolat, em Yazd.

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            Difícil esquecer a decoração delicada que ainda se pode observar no Hamam-e Ganj Ali Khan, em Kerman, com azulejos e pinturas do século XVII, contemporâneas dos enormes murais do Palácio Chehel Sotun em Esfahan, mostrando a vida e guerra da época. E difícil também esquecer a sensação de estar num reduto de tranquilidade no meio da capital, no Palácio Golestan.

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            As paisagens são áridas e grandiosas, mas equilibradas com a doçura das pessoas, das frutas e guloseimas de que os iranianos tanto gostam. E mais que qualquer visão de turquesa, que faz brilhar meus olhos quando vejo as maravilhas arquitetônicas iranianas, é por causa deles, iranianos e seu modo de vida, que eu sinto pena de partir.

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            Um hábito interessante de vários restaurantes é o de colocar mesas comunais, onde muitas famílias acabam comendo juntas. Nessas ocasiões tivemos oportunidade de sentir a curiosidade sobre nós e, muitas vezes, tentativas de comunicação. Mas nenhum guia conseguiu transmitir o olhar intenso de carinho da senhora que se encontrava à nossa esquerda, numa mesa do restaurante Flamingo, em Orumieh. Enquanto seu marido conversava conosco, ela só olhava e sorria para mim, como se quisesse dizer algo. E dizia, mais do que poderia com qualquer palavra.

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            Nesse mesmo dia o nosso guia Hossein, preocupado porque não conseguíamos despachar o tapete que havíamos comprado em Tabriz, não sossegou até nos ajudar a enviá-lo como carga. E também fez questão de esperar que entrássemos no avião, com um grande sorriso e mil tchauzinhos através do vidro da sala de embarque.

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            Falando em tapetes, passamos horas divertidas na loja Silk Road de Esfahan, conversando com o Shantyia, namorando os tapetes, aprendendo sobre eles, vendo outros clientes negociar e, no final, negociando nós mesmos. Além de tudo, era só colocar os pés para fora da linda loja e curtir o bazar das arcadas da praça Naqsh-e Jahan. Passar por lá era sempre uma ótima maneira de curtir nossas noites na cidade.

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(foto de Arnaldo)

            Em Kerman conheceríamos nosso companheiro pelo resto da viagem, sr. Majid. Um senhor sério, mas de sorriso franco e grande gentileza. Estava sempre preocupado conosco e não deixava nunca o seu cansado Samand sem um estoque de pistaches, chá, biscoitos, passas, pepinos e uma grande melancia, que nos alimentou em várias paradas pelas áridas estradas iranianas. Sua companhia serena e tranquila nos fez sentir um nó na garganta na despedida, no aeroporto de Teerã, quase partindo para Dubai.

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            Ainda em Kerman, fomos abordados por inúmeras pessoas no museu do hamam, querendo saber de onde éramos, se podíamos tirar fotos juntos. Perto da cidade, no mausoléu do Xá Ne’matollah Vali, fizemos amizade com duas moças de uma simpatia única: ficamos um tempo batendo papo e depois seguimos nossa visita, nos esbarrando aqui e ali. No final, nos despedimos com beijos e o convite sincero para que jantássemos com sua família em Teerã, na nossa volta. Teria sido incrível, se não tivéssemos apenas uma noite, maravilhosamente bem aproveitada com o Gabriel e a Márcia, além da ótima surpresa da Caroline se juntando a nós. Os três salvaram nossa última noite saudosa no país com um jantar que podia ter se estendido pela noite, se não fôssemos viajar muito cedo.

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            Aliás, as moças são um capítulo à parte: muitas vezes as via me olhando e sorrindo, com uma curiosidade e vontade de conversar. Às vezes elas vinham até mim, às vezes eu me adiantava. Eu me lembro especialmente de uma mãe e filha que estavam na mesa à nossa frente na casa de chá Azadegan, em Esfahan, e que vieram me dar um beijo depois quando nos encontramos nas arcadas da praça.

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(foto de Arnaldo)

            E de uma menina com seu pai, na saída da mesquita Jameh, na parte mais conservadora da cidade. Eu dei um oi e um sorriso, eles também, mas não conseguíamos nos comunicar. Seguimos nosso caminho. Cinco minutos depois, no meio do bazar, lá vem ela, puxar a minha blusa e me dar um grande sorriso. Como gostaria de ter conseguido saber um pouco mais sobre ela.

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(foto de Arnaldo)

            São discretos, gentis. Muitas vezes nos ofereciam um sorriso, algumas vezes uma gentileza, como frutas ou outros petiscos. Nós os achamos muito bonitos também. E mesmo quando não eram particularmente bonitos, eram sempre interessantes. Foi o lugar onde mais curti o passatempo de observar pessoas. Não cansava nunca: lindas moças bem-maquiadas com véus coloridos, moços de porte elegante e rostos expressivos, garotas em uniforme escolar e risadas espontâneas, senhores em ternos batidos e bicicletas antigas, refletindo pura dignidade.

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            A religiosidade é um elemento importante na vida do iraniano e percebe-se isso claramente quando se chega a uma mesquita ao meio-dia, logo após o chamado do muezim. Elas ficam cheias, assim como as inúmeras salas de oração nos locais em que não há uma mesquita próxima. Sempre que podia, o próprio sr. Majid nos pedia licença e seguia para suas orações.

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            Até mesmo foi criada uma atividade física típica, o zurkhaneh (casa da força), em que exercícios curiosos são acompanhados de um músico acompanhado de percussão, que recita poemas e também exaltações a Alá.

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            A presença forte do islã, especialmente traduzida nos olhares duros dos aiatolás, nos faz acreditar em um país mais tomado pela religiosidade do que efetivamente é. Sem dúvida o conservadorismo dá o tom do comportamento e a adesão ao chador é grande, especialmente no interior do país, mas percebemos que para uma boa parte da população, nas conversas e na pura observação, a religião toca a vida, mas não a domina. E muitos fazem questão de nos assegurar essa distância. Além disso, o Irã é lar de uma grande comunidade judaica, que só perde para em número para Israel. Liberdade religiosa também é usufruída pelos zoroastras: hoje são minoria e se concentram na região de Yazd (onde se encontra a Torre do Silêncio abaixo), mas esta já foi a religião oficial do império persa.

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            Combine-se a esse atraente conjunto humano os melhores cenários: jardins cheios de rosas e espelhos d’água, arcadas de bazares milenares…

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            …mesquitas com intrincados mosaicos de azulejos multicoloridos, praças cheias de vida.

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            Desertos emoldurados por montanhas, lagos tão salgados quanto o Mar Morto…

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            …resquícios de civilizações que testemunham a importância histórica da região, especialmente dos persas.

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            Adicione também o som do farsi sendo falado em restaurantes subterrâneos, em negociação nas lojas dos mercados, no som da música tradicional que se houve aqui e ali. E uma boa pitada de chá, pistaches, azeitonas em molho de romã, frutas muito doces, pão com iogurte, todos os tipos de kebab e o maravilhoso fesejun, sempre que encontrado.

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            Uma combinação única, original, ideal. Difícil de ser esquecida.

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