Toda viagem é uma oportunidade. Oportunidade de se divertir, de ver o belo, de aprender, de amar, até de se irritar e ter histórias para contar, enfim: de viver intensamente. É quando nossa mente está presente no mesmo local que nosso corpo e os anseios normais da rotina dão um descanso, esse é o momento que tanto queremos (ao menos os que compartilham do vício de querer estar sempre em movimento pelo mundo).

            É por conta desse privilégio que eu sempre viajo pronta para gostar. Pode ser que o lugar não me encante, mas sempre há algo que vale a pena: seja o povo, a comida, um ponto turístico, seja como curiosidade. No mínimo é uma experiência, que se conecta a outras e as complementa. Mas eu tenho sorte, pois não me lembro de nenhuma viagem que não tenha voltado com grandes memórias.

            Em compensação, quando o lugar te toca de maneira especial, a recompensa é certeira. E isso é um fato: há lugares e lugares. Lugares que deixaram boas lembranças e lugares que te dão uma dor no coração quando se lembra deles. De onde você quer absorver cada detalhe e viver plenamente cada segundo. Lugares para onde você pode voltar várias vezes, sem lugar para o tédio, e onde vai se sentir cada vez mais em casa.

            Eu tenho vários desses lugares, queridos ao coração e a todo o corpo. Paris é um deles, e de quem não é? Sinto saudades doídas da cidade e gosto das placas de ruas, dos azulejos do metrô e até do seu cheiro particular, que sinto assim que coloco os pés na rua. É assim também com Istambul, cidade que me esperará sempre com novidades e com as preciosidades de sempre. Penso em coqueiros nos morros de Minas e me dá um aperto. Qualquer canto da Grécia, qualquer um. Sevilha, Udaipur e, claro, Roma, sugando a cidade em apenas 24 horas nesta última visita e relembrando: como é bonita a danada!

            Voltamos há pouco tempo da Sicilia e tinha expectativas, sem dúvida: como me sentiria em Palermo, considerada uma cidade difícil, reduto da Máfia? Muitíssimo bem, tanto nos finais de tarde e noites ao redor da bonita Via della Libertà, quanto nos passeios pelos degradados La Kalsa e Vucciria. E quanto à badalada Taormina? Bem, é essa exatamente a sua definição: compras no centrinho medieval, banhos de mar em Isola Bella e ver-e-ser-visto em toda parte. É linda, muito linda.

            Mas não tinha nenhuma grande expectativa em relação a Siracusa. Escolhemos ficar duas noites na cidade por conta de sua posição estratégica dentro do nosso roteiro. Tendo visitado as espetaculares Segesta e Agrigento, não me empolgava tanto com o Parco Archeologico da cidade. Suas ruínas (que são muito interessantes, descobri depois) são quase tudo que restava da gigantesca colônia grega que se estabeleceu ali no século 8 a.C., uma das maiores do mundo antigo. O primeiro assentamento desses colonizadores foi na ilha de Ortigia, o começo de tudo em Siracusa. É ali que está localizado o centro histórico, que tem poucos resquícios desta época e é predominantemente barroco.

            Talvez a minha falta de interesse com a cidade tivesse origem no fato de este não ser o meu estilo arquitetônico favorito, mas de qualquer maneira escolhemos nossa hospedagem em Ortigia. Nossa primeira impressão foi muito boa, enquanto atravessávamos a ponte para chegar ao nosso hotel, numa pequena praça separada do mar abaixo por um muro. De nosso balcão observávamos o final da tarde refletido no mar.

            Como espectadores, podíamos ver as luzes do dia perder forças, enquanto aumentavam as das lâmpadas amareladas nas vielas, ressaltando as pinturas manchadas e rebocos descascando dos palácios decaídos. Plantas cresciam nos balcões de ferro trabalhados e pendiam sobre as calçadas. As ruas, desertas. Foi ali que percebi que Siracusa era uma cidade fora do comum.

            O que era para ser um jantar rápido no restaurante mais próximo do hotel, devido ao cansaço do dia cheio de estrada, se tornou um passeio completo, passando por cantos vazios até chegar às piazzas cheias de gente, em pleno aproveitamento da passeggiata. Assuntamos restaurantes, compramos azeites em uma loja de expatriados franceses que nos explicaram sua paixão pela Sicilia e terminamos a noite numa pasticceria, junto aos locais que tomavam sua última xícara de café. Ali é que pudemos perceber que Ortigia não é um museu para turistas: seus moradores são os protagonistas da ação, que fazem de uma cidade aparentemente em abandono um lugar cheio de energia.

            Pudemos constatar isso de manhã cedo, numa visita à feira livre que se instala todos os dias entre o prédio do mercado e a praça das ruínas do Templo de Apolo. Não é muito extensa, mas serviu como comprovação do sabor que estávamos sentindo em nossa viagem – a culinária siciliana se baseia na excelência das matérias-primas e ali estavam os legumes impecáveis, apalpados pelas matronas. Frutas apetitosas e tomates de todos os tipos, tão perfeitos que não pareciam reais (e me fizeram lembrar com tristeza da minha pobre plantação em casa), entre eles o famoso ciliegino di Pachino.

            O mar estava presente, como sempre, na forma de longos peixes-espada dobrados e caixas de vôngoles que esticavam suas pequenas trombas e cuspiam água nos desavisados que chegavam mais perto.

            Apesar do movimento do mercado, a cidade ainda não estava totalmente desperta. Retomamos nossas bicicletas (que o hotel coloca à disposição) e seguimos para o miolo de Ortigia, tentando evitar as ruas maiores, sem preocupação de se achar pelos labirintos da cidade velha: a ilha não é grande, em um momento ou outro se chega e uma rua ou praça conhecida. Imaginei que o mistério que impregnava o ambiente noturno se dissiparia com a chegada do dia e eu veria a cidade inteira em plena atividade, mas não. Os becos continuavam desertos e em algumas ruas apenas um gato ou um cachorro perdidos. Estariam os moradores dormindo, se recuperando da atividade noturna? Ou será que a maioria daquelas casas e palácios estava vazia? E como se deixou um patrimônio espetacular chegar a esse ponto?

            É um sentimento contraditório: apreciar a beleza da decadência, mas lamentar o quanto se perdeu no processo. Quando nos aproximamos do eixo principal da cidade é que percebemos o quanto Siracusa é grandiosa em toda a sua essência barroca.

            Os edifícios restaurados fazem contraste às ruelas internas, seguindo desde o Corso Matteotti até a praça Piazza Archimede…

            …e à piazza do Duomo.

            Por esta praça alongada, que já foi a Acrópole da Siracusa antiga, estão construções veneráveis, como o Palazzo Municipale ou a igreja de Santa Lucia, mas o edifício que mais impressiona é a própria catedral.

            Você pode vê-la pela primeira vez vindo pela própria praça e admirando sua bela fachada ou pela lateral, passando pelo Caffé Minerva e observando as colunas gregas que extrapolam a sua estrutura.

            E também pode apreciá-la com a iluminação noturna, jantando em um dos restaurantes à sua frente ou com a luz da manhã, quando a praça está completamente deserta.

            Imprescindível é entrar para conferir os detalhes de uma das igrejas mais incrivelmente originais: no local do templo grego dedicado a Atena (do século 5 a.C.), suas sólidas colunas se mesclam ao mosaico bizantino do chão e ao restante barroco: uma mistura da fé pagã com a cristã. Em todo lugar, a lembrança da história complexa da formação do povo siciliano.

            Falando em barroco, posso dizer que a Sicilia me forneceu lentes novas para apreciá-lo, com sua linha mais discreta e monocromática de pedra dourada, especialmente quando chegamos a Siracusa e as lindas cidades montanhosas do sudeste. Destruídas em grande parte pelo terremoto de 1693, foram reconstruídas neste estilo e são reconhecidas pela Unesco. Estivemos em Noto, que possui um centro muito bem preservado, com graciosas igrejas e palácios, além de um bairro antigo labiríntico, que exploramos com a pequena Piaggio do simpaticíssimo Sr. Corradino.

 (foto de Arnaldo)

            Belíssima também é Ragusa, empoleirada numa crista de montanha, com suas torres que podem ser vistas do outro lado do rio. Cheia de vielas que se emaranham a caminho do Duomo e sua fachada grandiosa, na parte mais alta da cidade, Ragusa é poética no seu silêncio, no cheiro dos limoeiros e na luz quente de final de tarde que bate nas suas casas, nas roupas estendidas.

(foto de Arnaldo)

            Final de tarde também é um horário precioso e imperdível em Siracusa: perfeito para, depois da sesta, caminhar nas calçadas que margeiam o mar turquesa que resvala entre pedras.

            No nosso caso, as bicicletas foram companheiras por uma volta à ilha, passeio inesquecível numa viagem em que não faltaram momentos também inesquecíveis.

            Seguimos os quatro (porque nesta viagem tivemos a companhia do meus amados irmão e cunhada), observando o brilho do mar e as luzes da cidade se acendendo e dourando as fachadas. É o horário de toda gente sair à rua para passear ou se exercitar, e o clima gostoso de noite de verão é convidativo.

            Depois de contornar a ponta da ilha, o Castello Maniace, chegamos à outra margem bem a tempo de pegar os últimos cinco minutos de sol no horizonte. Muita gente critica o clichê e o piegas que há em um pôr-do-sol, mas acredito que poucos sejam imunes a um especialmente bonito. E esse era um deles: o céu completamente róseo refletido na água da baía, cheia de veleiros. Comprovando a teoria, cheia também estava a promenade, turistas e locais, velhos e crianças, casais e amigos, todos sabendo apreciar o momento.

            Ortigia não tem praias, quem quer tomar banho no (lindo) mar tem que descer até às pedras, mas em compensação possui uma ‘praia’ deliciosa na costa oeste – vários restaurantes e bares badalados, com uma deliciosa vista. Junto a este centrinho, quase ao nível do mar, fica uma das atrações mais curiosas de Siracusa, a fonte Aretusa. Ela está aqui desde tempos antigos, quando era a principal fornecedora de água doce da ilha e hoje é cheia de peixes e papiros.

            Depois deste trecho, mais algumas pedaladas e se chega à marina…

            …com seus belos barcos e de onde se tem uma boa vista dos casarões à beira-mar, e depois à principal ponte de ligação com a terra firme. Vale a pena atravessá-la para ter uma ideia do conjunto de casas no caminho por onde se passou antes.

            Dali, nada melhor que voltar pelo caminho das ruínas do templo de Apolo, iluminadas em meio a um grande jardim…

            … e seguir por mais algumas das ruas desertas, tão antigas e cheias de atmosfera…

            …rumo a mais uma noite inesquecível na praça do Duomo, mais uma vez observando o passeio noturno, mais uma vez sentindo o sabor da comida siciliana, querendo, mais do que uma vez, poder voltar a Siracusa.