Fazia quase vinte anos que eu tinha visitado Veneza pela primeira e única vez. Eu era uma mocinha, adolescente, e estava com a minha família numa daquelas excursões de 30 dias pela Europa, com pouco mais de um dia para explorar a cidade. Veneza, praticamente um mito do turismo. Contra mim, justamente esses dois fatores: o tempo e a inexperiência.

            Com relação ao primeiro, não pense que cuspo hoje no prato que comi: apesar de meu estilo de viajar hoje ser completamente oposto ao esquema de excursões, acredito que muitas pessoas podem se beneficiar delas e aproveitar muitíssimo – assim como eu e meu irmão aproveitamos naquele verão. Descobrimos ali as atrocidades TV italiana, a deliciosa comida austríaca e as alegrias de ver o Brasil campeão do mundo comemorando com uma multidão em plena Piccadilly Circus. E Paris…

            Tivemos ainda a felicidade termos nossos pais como companheiros de descoberta, que viam tudo com olhos ainda mais infantis e brilhantes que os nossos. Eu me lembro claramente da alegria da minha mãe em meio à beleza de Viena e vendo os moinhos holandeses, assim como me lembro da admirável capacidade de localização que meu pai tinha em qualquer cidade e suas lições sobre geografia e economia por onde quer que passássemos.

            Enfim…aquela seria a primeira de muitas outras viagens ao continente e a inexperiência, o outro fator, viria ainda outras vezes à tona, mas os erros ajudaram na melhora das questões práticas e o tempo trouxe mais maturidade para entender exatamente o que me faz feliz ao viajar.

            Naquele verão veneziano, eu tinha os dois fatores contra mim, mas estava feliz, muito feliz enquanto tomava meu café da manhã à beira do Canal Grande, flutuava em um passeio noturno de gôndola e sentia o chão irregular de San Marco sob meus pés. Um sorriso bobo ficava na boca o tempo inteiro, assim como uma sensação de incredulidade que às vezes ainda toma conta de mim: eu estava mesmo ali? Em Veneza, sonho de todos os viajantes?

            O sorriso e a sensação tomaram conta de mim novamente enquanto percorria a laguna no táxi que nos levava ao hotel. E não saíram de mim durante os cinco dias em que estive na cidade, o primeiro se misturando a lágrimas enquanto me emocionava no mesmo táxi que nos levava de volta ao aeroporto.

            Apesar dos reconhecer pouco a pouco os lugares, aquela parecia minha primeira vez e nada diferenciava meu entusiasmo daquele de tantos anos atrás, adolescente. Era verão de novo e a cidade fervilhava, turistas saindo como lava de estação de Santa Lucia e rolando pelos canais, a maioria tendo como destino a praça de San Marco, claro. Com exceção dela, onde a lotação não permite a apreciar de verdade, a cidade parece ser impermeável ao fluxo de turistas e se mantém independente, como se eles não pudessem se misturar a ela. Mas se quiser ter certeza de ter espaços vazios, nada como se afastar da praça e do Grande Canal para sentir aos poucos que existe uma vida veneziana que segue seu ritmo natural, ou quase.

            Qualquer um dos bairros pode oferecer tranquilidade. Mesmo em San Marco, só é preciso se afastar um pouco das principais ruas do bairro para se maravilhar com campos e mais campos (pequenas praças), flores na janela, sotoportegos e surpresas com a Igreja Santa Maria dei Miracoli. Um caminho lindo em direção a Fondamenta Nuove, uma das mais importantes estações do vaporetto.

            Se estiver em Santa Croce, pode procurar pela Igreja de San Giacomo Dall’Orio e sua encantadora praça, cheia de velhinhas falantes pelos bancos. Ela em si é uma jóia, uma das mais antigas igrejas de Veneza, cheio de belas obras renascentistas e um teto em madeira excepcional. Seu silêncio e interior refrescante são preciosos em meados de agosto.

            Seguindo em direção a Dorsoduro as ruas ficam mais cheias de gente ao se aproximar da imponente Santa Maria dei Frari, mas é só continuar em direção às Zattere, um longo passeio à beira do Canal de Giudecca. O final de tarde ali é calmo, com longas caminhadas e sorvetes ao pé da água.

            Ali perto ainda está o Museu Peggy Guggenheim, programa delicioso que pode ficar ainda melhor se feito no final da tarde, próximo ao fechamento. Tudo ali vale a pena, mas reserve um tempo para curtir o seu jardim, um luxo raro na cidade.

            Andar por Veneza à noite é garantia de ruas desertas e um ambiente sombrio e melancólico, que combina muito bem com as prédios tortos e suas fachadas descascadas, levemente iluminadas pelas por luzes fracas.

            Já acordar cedo é a sua melhor aposta para ver o Mercado de Rialto em sua melhor forma…

            Os restaurantes ao redor estarão fechados e suas arcadas desertas, mas em compensação os moradores estarão em peso ao redor das barracas de verduras e frutas com cores tão vibrantes que é preciso se conter e lembrar que está longe de casa…

 

            As bancas de peixes e frutos do mar estarão repletas de seres que saíram há pouco da laguna – alguns só são encontrados ali e as águas são ricas.

            Na procura por boa comida veneziana, acabamos em outro canto pouco visitado, Castello. As ruas são ocupadas por (pouca) gente da vizinhança, mas sentimos quando nos deparamos com o desejado restaurante fechado – queremos tranquilidade, mas isso já é demais. A sorte é que bem próximo havia outro restaurante que nos encantou: difícil achar algo melhor que uma longa degustação de frutos o mar em pratos frescos e impecáveis, num pátio cheio de videiras. Uma preciosidade. (Um adendo: acertamos muito em Veneza com os restaurantes da Associazione dei Ristoranti della Buona Accoglienza.)

            Mas por que ir a Veneza nesta época do ano, se o que se quer é paz? A viagem tinha um objetivo: comemorar meu aniversário. E justamente no dia resolvemos fugir ainda mais e atravessar a laguna em direção à ilha de Torcello. A balsa nos levou por uma viagem de 45 minutos que parou na estação do Lido (visitada naquela primeira viagem, mas não tinha causado grande impressão), passou ao largo de Sant’Erasmo (a ‘horta’ de Veneza) e parou para troca de barco em Punta Sabbioni, terminando em Burano.

            Antes de seguirmos para Torcello passeamos por esta ilha e seus pequenos canais, onde as casinhas de pescadores parecem de bonecas, pintadas em cores vivas. Burano também é famosa por suas rendas.

            Dali até Torcello é apenas uma travessia de barco pelo canal que as separa. A paisagem é muito parecida com o que se vê no resto da laguna: vegetação rasteira entremeada de canais com seus barcos. Quase não há habitantes na ilha, ao contrário do que acontecia no século VII, quando era uma metrópole bizantina e o primeiro lugar de assentamento humano na laguna veneziana.

            Um caminho ladeado por um canal…

            …passando pela Ponte do Diabo…

            …nos leva ao ‘centro’. Aqui paramos para um almoço de aniversário maravilhoso sob as parreiras…

            …antes de seguir para o motivo principal de nossa visita a Torcello: a catedral de Santa Maria Assunta e a igreja de Santa Fosca.

            Ela foi fundada no século VII, no início do período áureo da dominação bizantina na região e foi bastante modificada com interferências desde o século IX até o século XI. Sua torre domina o horizonte neste canto da laguna…

            …mas a sua característica mais marcante é uma verdadeira preciosidade: mosaicos da escola de Ravenna, alguns dos mais espetaculares que já vi.

(foto-mosaico de Duckmarx)

            O mosaico da Madona sobre o altar é lindíssimo, mas de cair o queixo é o Último Julgamento, tomando toda a parede interna da fachada principal. Sua grandiosidade é inesperada, dado o lugar remoto e pouco divulgado onde se encontra. Quando se observa de perto, se vê os detalhes executados com maestria, onde o próprio tema proporciona tanto enlevamento como arrepios.

(fotos de Prof. Mortel)

            Os campos ao redor convidam a um piquenique sob os pinheiros ou junto aos vinhedos.

            Junto a ela está a Igreja de Santa Fosca, uma singela igreja românica fundada no século XI, com um interior simples que convida a reflexões e agradecimentos, especialmente quando mais um ano se passa…