Serra à moda mineira

Falando em lugares simpáticos na serra e (ainda) pouco procurados, não dá para esquecer Gonçalves, em Minas. Mesmo perto de Campos do Jordão, é um lugar para passar longe da muvuca e das construções alpinas: ali o estilo arquitetônico preferido é aquele rústico do interior de Minas, acolhedor e simples.

Chegar até ali não é muito complicado: deve-se seguir em direção a Campos do Jordão e virar à esquerda na saída para Santo Antônio do Pinhal. Essa estradinha atravessa a divisa algumas vezes até passar por São Bento do Sapucaí e logo após aparece a saída para Gonçalves.

A área urbana em si é bem pequena e não tem muitos atrativos a não ser o sossego de cidade do interior e a hospitalidade da Tanea em sua casa antiga na entrada da cidade, sede d’A Senhora das Especiarias. Vale a pena uma parada na volta para bater papo com ela e experimentar os chutneys e as geléias diferentonas e deliciosas que ela faz: que tal uma de cachaça? Ou de café? Talvez de hibisco? Na dúvida levamos várias ;-)

Saindo da cidade, pega-se a estrada de terra em direção ao bairro de São Sebastião das Três Orelhas (!!!), por onde estão espalhadas as pousadas, restaurantes, cachoeiras…é onde também fica a pousada que escolhemos para esse final de semana estendido em maio de 2006, a Passaredo. É uma pousada simples e aconchegante, com vários chalés em um jardim bem cuidado.

Os donos são de São Paulo e se mudaram para Gonçalves: caíram de amores pelo lugar e resolveram levar o sonho adiante. Eles estão sempre presentes e especialmente à noite, quando são servidas sopas para espantar o frio: eles gostam de bater papo e dar dicas para os hóspedes. Do lado de fora do restaurante a atração durante o dia fica por conta dos beija-flores, muitos e muitos…

Dá para relaxar na piscina ou na sauna ou simplesmente ocupar uma das redes na beira do rio, que passa bem em frente aos chalés…

Depois de relaxar um pouco, é hora de reconhecer o terreno. A área do município é cheia de atrações interessantes, mas nós nos concentramos na estrada da pousada que passa pela Pedra do Forno, um pouco à frente, e continua no sentido de Monte Verde. Por falar em formações rochosas, elas não faltam por aqui: você pode subir as trilhas para a Pedra Chanfrada, a Pedra Bonita, a do Cruzeiro…além da própria Pedra do Forno, de onde se tem uma visão inacreditável da serra: dizem que dá para ver as vizinhas Campos do Jordão e Monte Verde dali.

A trilha até o topo é fácil e pode ser percorrida em cerca de uma hora. Se você for de manhã, pode aproveitar para repor as energias almoçando no restaurante do Zé Ovídeo, na base da pedra. Comida caseira deliciosa e farta, servida no fogão à lenha e feita com ingredientes fresquinhos do próprio sítio. Não dá vontade de parar de comer, especialmente se acompanhada de uma cerveja geladinha. O atendimento tem aquela hospitalidade mineira e o próprio dono é uma simpatia. Hmmm…deu fome :mrgreen:

Outra possibilidade é partir para a água. Entre a Pedra do Forno e a cidade existem belas cachoeiras, como a do Retiro, que é na verdade composta por várias quedas impressionantes: a visitação se dá num dos pontos mais altos dela, de onde se tem uma visão do vale lá embaixo. Se existisse uma trilha para a base da cachoeira, com certeza ela teria sucesso. O desnível total é de cerca de 400 metros, uma bela visão.

Outra possibilidade é visitar a cachoeira do Simão, próxima da primeira e de acesso muito fácil. Ela não é muito alta, mas dá para acompanhá-la caminhando sobre as pedras, já que o rio escavou uma espécie de cânion na rocha.

As caminhadas são curtas até as duas cachoeiras, mas pode ter dado uma vontade de nadar e a fome apareceu…convenientemente ao lado da cachoeira do Simão está um dos melhores restaurantes de Gonçalves, o Le Bistrot: comida muito boa e um visual imbatível.

No nosso último dia resolvemos alugar uma moto para fuçar pela região. Que delícia andar pelas estradas de terra vendo os detalhes, parando onde dá vontade e sentindo o vento e o cheiro de mato. Aproveitamos a facilidade e resolvemos ir mais longe, até um lugar recomendado para o nosso almoço, um restaurante junto a um criadouro de trutas. Pena que não me lembro do nome, mas anda-se um bocado Descobri o nome através de um pessoal que tem casa lá: Truta Queda D’Água, mais conhecido também como Trutário do Bob, no caminho para Monte Verde, passando pela Pedra do Forno, perto do bairro Juncal (tem umas fotos bonitas aqui). O lugar faz sucesso entre o pessoal do motocross, o que faz sentido, considerando as distâncias percorridas em estrada de terra.

Em primeiro lugar você vai até os tanques para escolher a sua truta, que é abatida na hora e segue para a cozinha. No restaurante você se serve de saladas e acompanhamentos, curtindo o barulho do riozinho que passa ao lado enquanto espera pelo peixe, preparado da maneira que você quiser. Comida super fresquinha e gostosa, num lugar de puro sossego.

Já estamos sentindo falta de Gonçalves e queremos voltar logo. Aquele charme do interior mineiro misturado com o clima e visual de serra é de querer ir ficando, ficando…até deu vontade de comprar aquela ‘casa no campo’ de que fala Elis, como acontece com muitos por aqui. Quem sabe um dia?

Dolce far niente em SFX

Depois de Passa Quatro, escolhemos sanar uma lacuna nossa em relação às cidadezinhas de serra em São Paulo: São Francisco Xavier, a mais próxima delas da capital. Estávamos precisando urgentemente de descanso, depois de um período insano de trabalho que não dava sinais de melhoria no ritmo.

A escolha recaiu sobre a pousada A Rosa e o Rei, na estrada de terra que liga São Francisco Xavier a Joanópolis e Monte Verde, distante cerca de 11km do centro da vila, que na verdade é um distrito de São José dos Campos. A maior parte do distrito é legalmente reconhecido pelo Estado como APA (Área de Proteção Ambiental), por ainda manter um trecho original de Mata Atlântica na Mantiqueira.

Para chegar até lá é necessário passar por dentro de São José, num caminho um pouco confuso. A partir dali é uma estradinha bonita que segue até Monteiro Lobato e depois até o centrinho de SFX. A estrada é estreita e de mão-dupla, mas não é perigosa: tem poucas curvas e não há uma subida de serra forte, já que a vila não está numa posição muito alta, são os arredores que tem altitudes mais compatíveis com a serra.

(mapa de www.saofranciscoxavier.org.br)

São Francisco Xavier é uma vilinha simpática, com o tradicional centrinho com a matriz, coreto, alguns restaurantes e lojas. Nós não chegamos a experimentar a gastronomia local porque a nossa pousada oferecia pensão completa, mas algumas boas opções podem ser o Yoshi, de comida asiática, e o café Photozofia, que tem espaço para exposições e música ao vivo.

A cidade tem várias cachoeiras, pontos para salto de asa-delta, o Pico do Selado, muito procurado para escalada (já na divisa com Monte Verde, em MG) e várias trilhas, das quais a mais famosa é a travessia São Francisco Xavier – Monte Verde: 12 quilômetros que podem ser feitos em até 6h, em média. Já queria fazer essa trilha há um tempo, lindas vistas, mas não foi dessa vez: a preguiça falou mais alto e acabamos não saindo do hotel :oops:

Mas a pousada tem suas atrações próprias, entre elas duas cachoeiras, a Rosa…

…e o Rei…

…que podem ser ouvidas mais fortemente por quem fica nos chalés de baixo, no meio da mata que circunda o rio, mas um som mais suave pode também ser ouvido dos chalés de cima, que têm vista. Nós ficamos uma noite em um dos primeiros e o as outras duas nos de cima: estes tinham uma obra próxima, neste dia, e acharam que talvez o barulho pudesse ser ouvido e sugeriram a divisão da estada, o que aceitamos.

Todos são confortáveis, mas os de cima são mais espaçosos, alem de ter o ofurô dentro do quarto: nos chalés da mata o ôfuro fica em um terraço, ao ar livre. E um ponto crucial (para mim, pelo menos): essa bela vista ;-)

Em caso de querer não sair do chalé, você pode escolher DVDs, CDs e livros do catálogo que eles deixam à disposição na recepção e, para curtir o friozinho da serra, nada melhor que uma lareira. O fogo também é personagem principal quando todos se reúnem no jardim para apreciar uma bela fogueira construída para aquecer e deixar a noite ainda mais bonita…

De manhã, a pedida é participar das aulas de tai chi chuan dadas pelo Fred, o dono da pousada, numa bela sala com vista para o vale e com o som das cachoeiras ao fundo. Na verdade a idéia inicial dele era montar um centro de treinamento de tai chi no local, mas impedimentos quanto às construções devido à propriedade estar dentro da APA o fizeram desistir do projeto. Tempos depois o projeto da pousada surgiu e foi aprovado.

Outra boa sugestão é fazer a trilha dentro da pousada, que começa pela parte alta do terreno e segue a beira do rio, passando pelas duas cachoeiras. Em todo o percurso existem pontos para descanso e contemplação. Esse ponto virou um favorito para leitura…

 

Deve ser fabuloso ter um curso d’água como este dentro de uma propriedade, que privilégio! Dá até vontade de entrar, mas não estava exatamente quente e, segundo o pessoal da pousada, mesmo no verão é preciso ter coragem…Mas só a paisagem ao descer pela beira do rio já compensa :-D

Outro ponto que virou um preferido meu foi esse deck, num ponto isolado. Perto dele ficava um caminho d’água para massagear os pés e banquinhos para descanso…

Mas esse não é um lugar para carnívoros: todas as três refeições são ovolactovegetarianas. A comida é muito saborosa e gostamos especialmente dos jantares: sempre sopas creme, tortas ou risotos. Não sentimos falta da carne, realmente.

O tai chi chuan, a comida, a água correndo…a idéia é criar um ambiente de relaxamento e era disso mesmo que estávamos precisando: silêncio, beleza e privacidade. Quem sabe alguma trilha mais pesada da próxima vez? ;-)