A vontade de descer o Abismo Anhumas já existia há muito tempo…Eu me lembro do meu pai, um grande viajante e apreciador da natureza, comentando sobre a existência de uma caverna imensa e, dentro dela, um lago profundo, no Mato Grosso do Sul. Naquela época, a caverna ainda era restrita aos cientistas, tinha sido descoberta há pouco tempo.

Pois desde então a minha curiosidade continuava…Fiquei sabendo, há alguns anos, que a caverna estava aberta à visitação. Hmmm…

Para melhorar tudo, meus tios, que conhecem Bonito desde a era pré-turismo, visitaram a beira da caverna em sua última visita, no começo do ano. Não tiveram coragem de descer, mas me provocaram: ‘Você tem que ir, é a tua cara!’.

Para acabar com as dúvidas, o Marc também tinha se empolgado e queria ir de todo jeito. Sabíamos que a viagem não estaria completa sem o Abismo.

A visita tem que ser agendada com uma certa antecedência, especialmente na alta temporada: somente 16 visitantes podem descer de rapel e apenas 4 destes mergulham com cilindro no lago, que atinge 80 metros de profundidade. Existe também uma preparação no dia anterior à descida, com treinos de descida e subida pelas cordas, na base que a equipe do Abismo Anhumas mantém na cidade.

A descida só ocorre enquanto há luminosidade na caverna e, portanto, tudo começa bem cedo: éramos os primeiros do dia, e já estávamos lá às 7 da manhã.

Os carros só podem chegar até um certo ponto e percebemos que estamos na base de um pequeno morro. A trilha até a boca da caverna é um pouco íngreme e aí é que cai a ficha: a caverna não é um buraco no solo, mas um morro…oco!

Percebemos, então, que existem dois acessos: este que vocês vêem na foto acima, o maior deles e por onde entra a luz na caverna, e um bem menor, por onde descemos de rapel e onde está montada toda a estrutura. A descida é feita por este acesso por recomendação de espeleologistas, para um impacto ambiental menor.

Depois de rever as recomendações sobre o rapel, mergulho e etiqueta dentro da caverna (sim, mostraremos depois que é necessário), era hora de descer. Nos equipamos e, depois de atados por dois cabos à estrutura e por um outro entre nós, começamos a curtir o rapel…

São 72 metros da fenda até a superfície do lago…o começo é mais lento, pois a fenda não é tão grande e deve-se tomar cuidado para não ficar raspando contra as paredes. Um pouco depois já é possível olhar para baixo e ver o brilho da água.

A sensação é deliciosa…aos poucos vamos entrando na caverna, de leve, e tendo a melhor visão possível, totalmente panorâmica. Vemos os raios de luz entrando pela boca da caverna e atingindo o lago, de um lindo azul turquesa. Podemos também ver as as estalactites ao nosso lado, quando estamos passando na altura do teto da caverna. O esforço é mínimo e o aproveitamento, total. Pena que passa tão rápido…

Um dos instrutores já está nos esperando para nos desvencilhar das cordas e podemos ver a estrutura que foi montada para permitir as visitas. Existem dois decks flutuantes: um deles para a equipe, onde os instrutores organizam o equipamento do rapel e de mergulho autônomo. Uma parte dele está na foto abaixo:

O outro deck serve para que nós, visitantes, possamos descansar, nos equipar para o mergulho e comer alguma coisinha, afinal, se a descida não exige muito esforço, o mergulho e a subida (principalmente) consomem muitas calorias…Os dois decks são ligados por uma ponte e ainda temos também um banheiro químico para nossa comodidade.

Sobre a questão da etiqueta: além das recomendações óbvias de não deixar lixo, nem se aliviar em outro lugar que não o banheiro, deve-se também evitar falar muito alto. Isto não só pelo fato de que a caverna reverbera muito o som, mas também porque este é um ambiente único, de muita tranqüilidade, com ritmo próprio…devemos aproveitar e dar oportunidade para que os outros visitantes curtam também.

Relaxamos um pouco e subimos no bote para conhecer o lago e as formações da caverna, que são belíssimas…

 

 

Esta última formação à direita é o que eles chamam de ‘Guardião’. Infelizmente não pudemos vê-lo, pois a água do lago estava muito baixa e não daria para alcançar a região da caverna onde ele está. (Duas últimas fotos - site do Abismo Anhumas.)

Voltamos ao deck e começamos a nos equipar para o mergulho. Estávamos ansiosos, pois era a primeira vez que iríamos mergulhar com cilindro em uma caverna…e a expectativa era grande.

Uma das características únicas do Abismo Anhumas é a existência de uma ‘floresta de cones’, dentro do lago. Os cones são formações raras que, nas dimensões em que são encontrados aqui (alguns podem chegar a 16 metros de altura), só existem nesta caverna. Podemos vê-los já da superfície do lago:

Mas a beleza deles só se revela mesmo lá embaixo, a 18 metros de profundidade…descemos, descemos, damos uma olhada no esqueleto de tamanduá, que descansa no fundo do lago e, ao darmos a volta em um paredão, encontramos a ‘floresta’:

Tentei achar uma foto (e não consegui) que refletisse bem a hora em que estamos na parte mais baixa do mergulho e temos aquela sensação maravilhosa de ver todas aquelas formações, a luz atravessando a água, o silêncio…só aquilo já valia todo o passeio. Parecia que eu estava em outro mundo.

(Fotos de mergulho – site do Abismo Anhumas.)

Ainda ficamos um bom tempo mergulhando entre os cones e curtindo aquela experiência única. Tínhamos que subir, claro, mas eu não tinha vontade…

Uma vez no deck, tivemos tempo para colocar roupas quentinhas e comer alguma coisa antes de voltar à terra firme.

Ah, a subida…a técnica não é realmente difícil: você coloca os dois pés juntos na fita, leva uma espécie de mosquetão que você tem na altura dos olhos até onde o seu braço puder esticar e depois…é só esticar o corpo. Mas experimente fazer isso umas centenas de vezes… :roll:

Parar um pouquinho para curtir as últimas visões da caverna é sempre uma boa desculpa :-D

Ainda sobrou tempo para dar tchau para as corujas antes de voltar para o sol.

PS: Se eu faria de novo o Anhumas numa próxima vez? Com certeza. :-)