Etiópia, a única ou Dos quebra-cabeças africanos

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            Saímos cedinho de Turmi, vilarejo no sul da Etiópia, quase fronteira com Quênia e Sudão. Era necessário, pois tínhamos muito chão a percorrer até chegar ao nosso já conhecido hotel em Arba Minch. Além da distância, tínhamos um ritmo lento por conta dos longos trechos em estradas de terra, do congestionamento causado pelas boiadas que interrompiam o tráfego e das frequentes paradas para tirar fotos ou comprar frutas. Considerando que o dia seguinte também seria inteiro de estrada, tínhamos tempo mais que suficiente para assimilar os nossos últimos dias.

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            Tempo para relembrar, se maravilhar, não acreditar, se questionar. Não são poucas as perguntas, incertas as respostas. Tínhamos passado quase uma semana rodando pela região e tivemos consciência do privilégio de sermos um dos pouquíssimos turistas a conhecer a riqueza humana desse pedaço do mundo. Conforme seguíamos rumo sul, desde Addis Ababa, testemunhávamos uma jornada não apenas geográfica, mas temporal: gradualmente passávamos de etnias já integradas à vida urbana, como os Gurage, Hadiya e Walaita, para as tribos das terras altas, com estilos de vida, arquitetura e cultivo elaborados, mas ainda completamente rurais, como Konso e os Dorze. E quando descemos pelos paredões do vale do Rift até as planícies áridas e quentes do Vale do Rio Omo, viajamos não só pelo espaço, mas pelo tempo.

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(Rio Omo)

            O Omo é um pedaço do mundo onde ainda se vive como nos primórdios da humanidade. Os povos que ali vivem ainda dependem do pastoreio e do cultivo básico, vivem em aldeias e têm como casas cabanas onde seres humanos dividem o espaço com os animais. Vivem comunitariamente, mantém rituais animistas e festas de celebração de maturidade onde mulheres recebem chibatadas de vontade própria, enquanto homens nus saltam sobre gado.

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(Totens dos antepassados no pátio de uma casa konso.)

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(Celebração do Evangadi, dança noturna pré-casamento, ritual hamer.)

            São povos com uma percepção muito particular de beleza: as mulheres hamer torneiam seus cabelos cacheados com ocre e manteiga…

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            …os karo pintam seus corpos com as pintas brancas que evocam as galinhas d’angola…

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            …as mulheres casadas mursi recortam seus lábios inferiores para que encaixar discos do tamanho de pratos de sobremesa…

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            …e, em comum a todos, a prática de escarificação, considerada sensual tanto para homens como para mulheres. Com a variedade de povos vem um número enorme de línguas, porém nenhuma possui forma escrita.

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            Para moradores do chamado mundo civilizado, esse primitivismo suscita as reações mais diversas, sendo a primeira talvez a incredulidade em testemunhar como se vive sem a possibilidade de qualquer conforto e serviços essenciais como assistência médica. E não só viver, mas viver com dignidade, com direito não só a alimentação e um teto, mas com experiência real de comunidade, de lazer nas festas, de diversão para as crianças. Com um pouco de esforço podem ter acesso a algumas experiências da vida do outro lado do espelho nos vilarejos do Vale, mas preferem manter seu estilo de vida tradicional. Como podem preferir viver com tão pouco? É um tapa na cara de todos nós que estamos ali como voyeurs, acostumados que estamos com nossa dimensão acelerada, individualista e consumista.

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            Ao mesmo tempo em que a crueza e as características radicalmente diferentes dos mundos do Omo chocam, elas também são refrescantes, na medida em que mostram que a vida moderna ocidental, como a conhecemos e prezamos, não é a única possibilidade neste nosso mundo globalizado e cada vez menor: ainda temos rincões onde a diversidade humana toma dimensões únicas.

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            Mas uma hora a modernidade chegará. E a velocidade seria mais lenta não fosse a concessão de terras pelo governo etíope para uma joint venture turco-indiana montar uma usina de cana-de-açúcar e ocupar grandes extensões para seu cultivo. E isso não é tudo: a maior polêmica atualmente é a construção de uma usina hidrelétrica que ameaça a sobrevivência dos povos do Omo.

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            Hidrelétricas também causam polêmica no norte, especialmente uma próxima ao Lago Tana, o maior do país: ali uma usina represa a maior parte das águas do Nilo Azul, que nasce a alguns quilômetros no próprio lago. A consequência é a diminuição brutal das quedas do rio, o que alterou consideravelmente o ecossistema ao redor delas. Dessas nossas duas experiências tomamos contato com um dos maiores dilemas da atualidade e que são ainda mais evidentes no continente africano: a questão da preservação ambiental confrontada com as necessidades crescentes dos seres humanos que habitam na terra. Tentar recuperar um parque nacional ou ceder as terras para que comunidades tribais cultivem para sua subsistência e sobrevivência? Deixar um grande rio seguir seu curso ou represá-lo para atender as necessidades dos moradores das cidades que o cercam? Nenhuma resposta que sairia como óbvia no mundo de teorias e especulações pode ser dada aqui sem um sentimento de leviandade. A África subsaariana é só perguntas.

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            Como reagir ao assédio das crianças que pedem canetas, garrafas de água e birr (a moeda etíope)? E como assimilar o fato de se sentir um alien em todo canto, especialmente quando se ouve o chamado onipresente: ‘Faranji, faranji, faranji!’ – estrangeiro, gringo. E a cada novo contato, apostar sempre na simpatia espontânea para ser recompensado numa porcentagem pequena de abordagens – sentimento comum em outros países também, quem viajou pela Índia conhece bem a sensação. E como recriminar? Impossível. Talvez seja pura curiosidade de ter contato com alguém tão exótico para ele. Talvez seja uma oportunidade inocente de diversão. Talvez seja a única maneira de conseguir a atenção, de um contato humano que não precisa de explicação. Aconteceu comigo no mercado de Dimeka, quando uma menina tomou minha mão e passeou comigo por todo o tempo da feira e depois seguiu com seus amigos.

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(Ebenezer, à esquerda, o poliglota de Jinka.)

            A cabeça se contorce com as dúvidas e o coração se aperta ao ver a precariedade da vida na maior parte da Etiópia. Mas nem só de questionamentos se faz uma viagem por aqui: elas são intrínsecas, mas convivem com surpresas, das melhores que se pode ter quando se conhece uma nova cultura. E aqui elas são inúmeras. Sabemos tão pouco do país que, mesmo com a preparação para a viagem, não se tem idéia do que vai encontrar. Especialmente em se tratando da Etiópia: um país culturalmente contido em si próprio, sem influência externas, de história longa e conturbada devido à sua posição estratégica.

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(Pequena na procissão de Lalibela: no rosto, cabelo e roupa, a mais típica representação do povo etíope)

            A primeira surpresa já começa no aeroporto: o relógio do balcão de vistos está parado. Não, não está parado, ele marca a hora etíope correta: são 3 da noite, mais conhecida como 21 horas para nós – eles contam as horas a partir do nascer e do pôr-do-sol. E também não estamos no dia 3 de janeiro, tampouco em 2014: por seguir o calendário sideral, voltamos pouco mais de sete anos no tempo (ou como diria o slogan do nosso operador: ‘Travel Ethiopia…and be seven years younger!’).

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            Os rostos vão se sucedendo e começamos a perceber as características físicas muito próprias dos etíopes. Seus rostos são extremamente interessantes, bonitos, e muitos usam roupas tradicionais. Não nos cansamos de observá-los.

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            A próxima surpresa vem quando rodamos um pouco ao norte da capital e descobrimos que a Etiópia da fome, aquela que a maioria das pessoas ainda tem em seu imaginário, não existe mais há tempos e que o país é cheio de terras altas, belas e tomadas de campos verdes. Já ao sul, o Vale do Rift é calor e aridez alternados com inúmeros lagos, que abrigam uma fauna única, com destaque para os pássaros. As paisagens são das mais diversas e bonitas que já vimos.

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(paisagem típica das terras altas do norte, vilarejos de tukuls – cabana circular – em meio a campos cultivados.)

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(Paisagens do Lago Chamo, um dos maiores da seqüência de lagos gerados pela falha do Rift.)

            Viajamos por terras de mil tribos no Vale do Omo, por uma cidade islâmica que nos transportou para 500 anos atrás em Harar…

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(Mercado em frente ao portão Shoa, um dos seis da cidade murada de Harar.)

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(À esquerda, uma das mais de 80 mesquitas de Jugal, a cidade murada.)

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(Museu Rimbaud, na suposta casa onde o poeta morou, nos muitos anos em que viveu em Harar.)

            …velejamos pelas águas do Lago Tana para conhecer igrejas medievais tomadas por afrescos…

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            …passeamos por entre castelos medievais que poderiam estar em qualquer cidade europeia, mas estão em Gondar…

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            …descobrimos o obscuro império axumita…

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(Parque das Estelas, em Axum.)

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(À esquerda, alfabeto sabeu em inscrição do século IV; à direita, tumba real axumita.)

            …e estivemos cara a cara com uma das maravilhas humanas, as igrejas esculpidas em pedra de Lalibela.

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(Bet Giyorgis – Casa de Jorge, a mais famosa igreja monolítica de Lalibela.)

            O amárico, língua oficial do país, é escrita com seu alfabeto próprio, pequenos desenhos antigos que lembram hieróglifos. As feições típicas etíopes são diferentes de qualquer outro povo, uma mistura de África subsaariana com Oriente Médio.

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(Bíblia medieval escrita em Ge’ez, língua antiga que precedeu o amárico.)

            E como não poderia deixar de ser, a religião também é única: a Igreja Ortodoxa Etíope mantém ritos particulares e muito próximos do cristianismo original, em parte por ter se mantido isolada de outros países cristãos e em luta constante com a expansão islâmica, mas também porque foi o segundo país no mundo a adotar oficialmente a religião, no século IV.

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(Um dos padres liderando a procissão do Timkat – Epifania – que saía de Bet Giyorgis, em Lalibela.)

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(Devoção – e diversão – na procissão do Timkat, em que as Arcas da Aliança de todas as igrejas se unem.)

            Junte a este caldeirão a crença em serem descendentes da união do Rei Salomão com a Rainha de Sabá (que crêem ser etíope, apesar de sua existência não ser comprovada por historiadores) e em serem possuidores da Arca da Aliança, de terem tido como último rei um homem considerado por muitos um deus, com direito a sua própria religião: Haile Selassie – ou Ras Tafari. Considere também o fato da Etiópia ter sido o único país africano a não ser colonizado e que atualmente ele sedia não somente a Comissão Econômica para a África das Nações Unidas, mas também a própria União Africana.

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(À direita está a segunda igreja que guardou a Arca da Aliança, do século XVII até o XX, quando foi transferida para a capela à esquerda.)

            E não devemos nos esquecer também que a Etiópia é a nossa origem, a terra da Lucy, nosso elo perdido da evolução, e de toda a cadeia evolutiva do ser humano, dos primeiros Australopithecus até o Homo Sapiens.

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(Original e réplicas do esqueleto de Lucy, uma Australopithecus afarensis, em exposição no Museu Nacional de Addis Ababa.)

            Língua, música, roupas, rostos e jeitos: tudo é novidade, tudo é único. Não há outro país no mundo que se pareça remotamente com a Etiópia. E é por isso e pelos sorrisos fartos e olhos orgulhosos do povo que viajar por aqui é uma oportunidade única, recompensadora, empolgante.

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Caleidoscópio iraniano

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            Meu último dia em cada viagem é invariavelmente melancólico. E na volta o espírito do lugar me assombra, mas não procuro fugir dele. Algumas pessoas sentem falta de casa e já antecipam o prazer de girar a chave e voltar a entrar em território conhecido. Eu, não. Apesar de amar minha casa e ter um prazer delicioso em morar e trabalhar nela, eu não penso nela enquanto estou viajando. Acabo me envolvendo de tal modo com o que me cerca que, se não fosse as checagens diárias ao e-mail de trabalho (por obrigação) e as mensagens no Whatsapp com minha família (por pura saudade e vontade de que estivessem ali), eu mergulharia completamente no meu destino.

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            Nossa última viagem, ao Irã, não foi diferente.  Tínhamos passeado o dia inteiro por Kashan, uma cidade adorável. Tanto que me peguei praguejando: por que tinha deixado somente um dia para explorá-la? Por que, na vontade de conhecer um pouco de tudo, eu tinha me deixado levar pela ilusão de que conseguiria aproveitar a cidade?

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            Puro mau-humor, afinal tínhamos aproveitado bem a cidade. Ele tinha vindo para mascarar a melancolia, que chegaria com força no final da tarde, enquanto nosso querido Majid Agha (sr. Majid) nos conduzia pelas ótimas estradas de volta a Teerã. Enquanto comia os meus biscoitos de arroz (tinha conseguido um abastecimento deles em Esfahan, apesar de não terem a delicadeza dos de Yazd), fiquei mergulhada nas minhas lembranças. Tudo ficava para trás, apesar de ainda estar lá, de ter se passado apenas uma quinzena desde a nossa chegada na madrugada de Teerã.

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            Ainda tinha um gostinho das noites de Esfahan, as pessoas fazendo compras nos bazares ou simplesmente passeando pela Praça Naqsh-e-Jahan, iluminada e cheia de vida. Tinha acabado de ter um das melhores refeições: dizi (cozido de grão-de-bico com cordeiro) sob a abóboda secular do Timcheh Amin-o Dowleh, no bazar de Kashan, em meio às antiguidades.

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            E também já sentia saudades do começo da viagem, do calor do deserto em Kerman…

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             …e dos bazares vazios de Yazd.

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            Sentia falta das inúmeras paradas nas casas de chá, hábito fácil de se adquirir…

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            …do nosso primeiro contato com o país em Teerã, ainda perdidos, e dos jardins e poetas de Shiraz.

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            O Irã é belo. Não há como ficar indiferente à mesquita Sheikh Lotfollah, em Esfahan: é como ser abraçado, envolvido pela beleza, entre o silêncio e a penumbra.

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             Ou ficar imune aos incríveis jardins, ideais do paraíso persa. Cada um atrai numa medida diferente, como o cosmopolita Eram, em Shiraz, ou o oásis de Bagh-e Dolat, em Yazd.

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            Difícil esquecer a decoração delicada que ainda se pode observar no Hamam-e Ganj Ali Khan, em Kerman, com azulejos e pinturas do século XVII, contemporâneas dos enormes murais do Palácio Chehel Sotun em Esfahan, mostrando a vida e guerra da época. E difícil também esquecer a sensação de estar num reduto de tranquilidade no meio da capital, no Palácio Golestan.

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            As paisagens são áridas e grandiosas, mas equilibradas com a doçura das pessoas, das frutas e guloseimas de que os iranianos tanto gostam. E mais que qualquer visão de turquesa, que faz brilhar meus olhos quando vejo as maravilhas arquitetônicas iranianas, é por causa deles, iranianos e seu modo de vida, que eu sinto pena de partir.

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            Um hábito interessante de vários restaurantes é o de colocar mesas comunais, onde muitas famílias acabam comendo juntas. Nessas ocasiões tivemos oportunidade de sentir a curiosidade sobre nós e, muitas vezes, tentativas de comunicação. Mas nenhum guia conseguiu transmitir o olhar intenso de carinho da senhora que se encontrava à nossa esquerda, numa mesa do restaurante Flamingo, em Orumieh. Enquanto seu marido conversava conosco, ela só olhava e sorria para mim, como se quisesse dizer algo. E dizia, mais do que poderia com qualquer palavra.

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            Nesse mesmo dia o nosso guia Hossein, preocupado porque não conseguíamos despachar o tapete que havíamos comprado em Tabriz, não sossegou até nos ajudar a enviá-lo como carga. E também fez questão de esperar que entrássemos no avião, com um grande sorriso e mil tchauzinhos através do vidro da sala de embarque.

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            Falando em tapetes, passamos horas divertidas na loja Silk Road de Esfahan, conversando com o Shantyia, namorando os tapetes, aprendendo sobre eles, vendo outros clientes negociar e, no final, negociando nós mesmos. Além de tudo, era só colocar os pés para fora da linda loja e curtir o bazar das arcadas da praça Naqsh-e Jahan. Passar por lá era sempre uma ótima maneira de curtir nossas noites na cidade.

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(foto de Arnaldo)

            Em Kerman conheceríamos nosso companheiro pelo resto da viagem, sr. Majid. Um senhor sério, mas de sorriso franco e grande gentileza. Estava sempre preocupado conosco e não deixava nunca o seu cansado Samand sem um estoque de pistaches, chá, biscoitos, passas, pepinos e uma grande melancia, que nos alimentou em várias paradas pelas áridas estradas iranianas. Sua companhia serena e tranquila nos fez sentir um nó na garganta na despedida, no aeroporto de Teerã, quase partindo para Dubai.

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            Ainda em Kerman, fomos abordados por inúmeras pessoas no museu do hamam, querendo saber de onde éramos, se podíamos tirar fotos juntos. Perto da cidade, no mausoléu do Xá Ne’matollah Vali, fizemos amizade com duas moças de uma simpatia única: ficamos um tempo batendo papo e depois seguimos nossa visita, nos esbarrando aqui e ali. No final, nos despedimos com beijos e o convite sincero para que jantássemos com sua família em Teerã, na nossa volta. Teria sido incrível, se não tivéssemos apenas uma noite, maravilhosamente bem aproveitada com o Gabriel e a Márcia, além da ótima surpresa da Caroline se juntando a nós. Os três salvaram nossa última noite saudosa no país com um jantar que podia ter se estendido pela noite, se não fôssemos viajar muito cedo.

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            Aliás, as moças são um capítulo à parte: muitas vezes as via me olhando e sorrindo, com uma curiosidade e vontade de conversar. Às vezes elas vinham até mim, às vezes eu me adiantava. Eu me lembro especialmente de uma mãe e filha que estavam na mesa à nossa frente na casa de chá Azadegan, em Esfahan, e que vieram me dar um beijo depois quando nos encontramos nas arcadas da praça.

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(foto de Arnaldo)

            E de uma menina com seu pai, na saída da mesquita Jameh, na parte mais conservadora da cidade. Eu dei um oi e um sorriso, eles também, mas não conseguíamos nos comunicar. Seguimos nosso caminho. Cinco minutos depois, no meio do bazar, lá vem ela, puxar a minha blusa e me dar um grande sorriso. Como gostaria de ter conseguido saber um pouco mais sobre ela.

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(foto de Arnaldo)

            São discretos, gentis. Muitas vezes nos ofereciam um sorriso, algumas vezes uma gentileza, como frutas ou outros petiscos. Nós os achamos muito bonitos também. E mesmo quando não eram particularmente bonitos, eram sempre interessantes. Foi o lugar onde mais curti o passatempo de observar pessoas. Não cansava nunca: lindas moças bem-maquiadas com véus coloridos, moços de porte elegante e rostos expressivos, garotas em uniforme escolar e risadas espontâneas, senhores em ternos batidos e bicicletas antigas, refletindo pura dignidade.

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            A religiosidade é um elemento importante na vida do iraniano e percebe-se isso claramente quando se chega a uma mesquita ao meio-dia, logo após o chamado do muezim. Elas ficam cheias, assim como as inúmeras salas de oração nos locais em que não há uma mesquita próxima. Sempre que podia, o próprio sr. Majid nos pedia licença e seguia para suas orações.

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            Até mesmo foi criada uma atividade física típica, o zurkhaneh (casa da força), em que exercícios curiosos são acompanhados de um músico acompanhado de percussão, que recita poemas e também exaltações a Alá.

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            A presença forte do islã, especialmente traduzida nos olhares duros dos aiatolás, nos faz acreditar em um país mais tomado pela religiosidade do que efetivamente é. Sem dúvida o conservadorismo dá o tom do comportamento e a adesão ao chador é grande, especialmente no interior do país, mas percebemos que para uma boa parte da população, nas conversas e na pura observação, a religião toca a vida, mas não a domina. E muitos fazem questão de nos assegurar essa distância. Além disso, o Irã é lar de uma grande comunidade judaica, que só perde para em número para Israel. Liberdade religiosa também é usufruída pelos zoroastras: hoje são minoria e se concentram na região de Yazd (onde se encontra a Torre do Silêncio abaixo), mas esta já foi a religião oficial do império persa.

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            Combine-se a esse atraente conjunto humano os melhores cenários: jardins cheios de rosas e espelhos d’água, arcadas de bazares milenares…

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            …mesquitas com intrincados mosaicos de azulejos multicoloridos, praças cheias de vida.

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            Desertos emoldurados por montanhas, lagos tão salgados quanto o Mar Morto…

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            …resquícios de civilizações que testemunham a importância histórica da região, especialmente dos persas.

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            Adicione também o som do farsi sendo falado em restaurantes subterrâneos, em negociação nas lojas dos mercados, no som da música tradicional que se houve aqui e ali. E uma boa pitada de chá, pistaches, azeitonas em molho de romã, frutas muito doces, pão com iogurte, todos os tipos de kebab e o maravilhoso fesejun, sempre que encontrado.

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            Uma combinação única, original, ideal. Difícil de ser esquecida.

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